Saudações Caetés


Vida de artista

Colegas de todos os espetáculos

Hoje, morando no litoral, no tempo da internet, televisão e shopping center, as opções de lazer disponíveis para o público infanto-juvenil são tantas que as vezes fica difícil até escolher, mas nos meus tempos de menino, lá na Ribeira do Panema, as atividades de lazer que tínhamos eram: rodar pião, puxar carrinho amarrado por um cordão, brincar de esconder, pegar, garrafão, rouba-bandeira, sete-pecados, boca-de-forno e chimbra, que era o nome dado à bola de gude por aquelas bandas, hoje uma palavra que caiu em desuso, como em desuso caíram todas essas antigas brincadeiras de criança. Brincávamos normalmente na rua, porque a quantidade de veículos existentes era tão pequena que não ofereciam risco. Afora esses jogos infantis, os eventos de lazer eram limitados basicamente a duas opções: as festas religiosas e os espetáculos de circo.

Em Santana do Ipanema às vezes chegava circos de porte médio, mas, na grande maioria das vezes, os circos eram pequenininhos, daqueles adequados ao sertão nordestino, nos quais o espetáculo dependia do humor de São Pedro. Na minha época, a área utilizada para a instalação dos circos na cidade era bem próxima à casa da minha avó, de modo que muitas vezes íamos às matinês levados por nossas tias que tudo faziam para nos agradar. Uma vez, quando tinha uns dez anos de idade, meus pais me levaram ao Recife, não me lembro exatamente para que, mas, quando chegamos lá, o Circo Orlando Orfei estava montado na cidade, lá no Cais do Apolo. À noite fui com meus pais assistir um espetáculo o qual nunca esqueci. O circo era enorme e eu me admirava com tudo que via, de modo que algumas cenas eu lembro até hoje. Em determinado momento o apresentador anunciou um intervalo e saímos todos para a área externa do circo. Lá fora havia trailers e barracas que vendiam lanches, refrigerantes e souvenires do circo, sendo todos esses pontos de venda ornamentados por um jogo de luzinhas que piscavam sincronizadamente sem parar. O circo Orlando Orfei tornou-se para mim o grande referencial que eu tinha dos espetáculos circenses.

Ao longo da história, os critérios para avaliar os espetáculos circenses mudou muito. Atualmente, nos tempos de Cirque de Soleil, os espetáculos valorizam muito o malabarismo, apresentado com uma teatralidade muito bem ensaiada e com acompanhamento musical perfeito, mas houve o tempo em que um circo que se prezasse teria que ter um número com animais, hoje uma prática em desuso. Mas quando eu era menino, lá no sertão, além de palhaços e malabaristas, os circos sempre apresentavam uma peça de teatro no fechamento do espetáculo, era uma espécie de "grand finale". Talvez o que tenha me marcado tanto é que aquela era a oportunidade de ver encenadas as histórias clássicas que eu só conhecia nos livros de história ou que eram contadas pela minha mãe. Por sua vez, numa época e lugar onde não havia televisão e o rádio apenas trazia notícias e tocava músicas de uma parte distante do país, para os adultos jovens o circo acalentava outro sonho que era a entrada no mundo artístico.

Há uns dias atrás, numa noitada com uns primos, um deles contou uma história lá dos tempos dos antigos circos do interior. Certa ocasião estava armado um circo na cidade e, como de praxe, ao final do espetáculo tinha a apresentação teatral. A peça contava a história de um julgamento e todos os personagens apresentavam-se muito bem caracterizados com togas, perucas e outros adereços que ajudavam a montar um cenário forense. Os personagens principais eram o advogado e o promotor sendo o juiz da peça um personagem secundário. Contou-me o primo Zé Carlos que somente ao final da peça o juiz pronunciava uma simples frase que era:

 - Esta adiada a audiência.

Há de se convir que era uma participação pífia para um personagem de tamanha importância, mas era esse o script da peça e assim teria que ser. O problema é que o "ator" que representava o juiz, provavelmente por se sentir impedido de mostrar ao público todo o seu talento, certo dia, anunciou não iria mais representar aquele personagem. Foi um verdadeiro caos sob a lona, o julgamento era uma "mega produção" e a direção do circo usava todos os artistas que tinha para a sua representação. A falta de um só inviabilizaria toda a peça. Tentaram conversar com o ator, mas ele foi inflexível, não iria mais se apresentar. Seguindo a máxima de que "o espetáculo não pode parar" o pessoal do circo partiu em busca de um substituto dentre os moradores da cidade que tivesse alguma veia artística. Em dado momento, alguém se lembrou de uma pessoa que cantava muito bem, sendo muito requisitado nas serestas que tradicionalmente ocorriam nas ladeiras de Santana, era um rapaz conhecido como Caçador.

Conheci Caçador quando eu já era adolescente. Nessa época, nos domingos pela manhã, no salão do Cine Alvorada, acontecia um show de calouros e eu tive oportunidade de assistir um ou dois desses programas. Os jovens com talentos artísticos se apresentavam e, ao final, o público escolhia o melhor deles como o campeão, mas o tempo todo o apresentador anunciava que depois dos calouros haveria um show com CAÇADOR. De fato, após a escolha do melhor calouro, o "gogó de ouro" subia triunfalmente ao palco sendo aplaudido efusivamente pelo público. Eu nunca soube o nome de batismo dele, mas isso pouco importa porque todo mundo na cidade só o conhecia pelo seu apelido. Tratava-se de um sujeito alto e quando surgia para se apresentar tinha uma pose que lembrava muito o cantor Sérgio Reis.

Uma vez conhecido o perfil do pretendente a ator, a turma do circo foi à caça de Caçador, oferecendo-lhe a oportunidade de mostrar seus dotes nas artes cênicas. Quando recebeu o convite os olhos dele se iluminaram. A fala do personagem era pequena, mas aquela era a oportunidade que ele tanto esperava. Se tudo desse certo uma carreira promissora se vislumbrava.

O tempo de preparação era curto, o espetáculo era naquela mesma noite e o novo ator não podia perder tempo. Empolgado com a oportunidade estudou os gestos, a melhor entonação de voz e principalmente o texto. Durante todo aquele dia Caçador ficou absorto concentrando-se na sua fala e evitando até contato com outras pessoas para não dispersar os pensamentos. Quando saia à rua ia balbuciando sem parar sua fala na peça.

Quando a noite chegou Caçador estava super compenetrado. O espetáculo começou e aí tiveram as apresentações dos malabaristas, rumbeiras e logicamente dos palhaços. Finalmente, para concluir a apresentação daquela noite chegou a hora do teatro. O cenário foi rapidamente montado e os atores entraram em cena. Cada um foi declamando suas falas e enquanto o público se encantava com a história, o aspirante a ator aguardava o momento de pronunciar sua única frase que eram as palavras finais da peça. Quando esse momento chegou, Caçador com uma voz alta, firme e bem treinada, bateu com o martelo sobre a mesa e disse:

 - "TÁ ODIADA A ODIÊNÇA".

Eu não vou precisar descrever aqui a reação da platéia, mas com certeza a carreira de Caçador nas artes cênicas foi bastante curta.

Meus amigos, mais uma vez venho desejar a vocês uma boa semana e espero também que cada um sempre seja capaz de representar muito bem o papel que te cabe no picadeiro do mundo, porque o espetáculo da vida não pode parar.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

Obs: Essa história é um clássico da minha terra. Na década de 70, Djalma de Melo Carvalho já a incluíra no seu livro "Festas de Santana", o primeiro livro de crônicas que eu li.



Escrito por Virgílio Agra às 23h10
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Arte de raiz

Colegas de todas as literaturas

Eis que à semana passada um velho amigo ligou para dar uma boa notícia lá das bandas da terra em que o Capibaribe se encontra com o Beberibe para formar o mar. Me contou que um rapaz chamado Manoel Constantino foi vitorioso no Primeiro Concurso de Literatura Infantil da CEPE, a Companhia Editora de Pernambuco com o livro "Anjo de Rua". O que levou meu amigo a ligar para dar a informação é o fato de que Manoel Constantino Filho ser natural de Santana do Ipanema, lá no sertão alagoano.

Lá na Ribeira do Panema, Manoel é conhecido como Manoel Filho, porque Manoel Constantino é o seu pai. Quando ainda residente na nossa cidade natal, Manoel Filho já participava de atividades do Teatro de Amadores Augusto Almeida incentivado por Albertina Agra, minha tia. Ainda adolescente o rapaz foi estudar em Recife. Formado em jornalismo, hoje trabalha na Fundação de Cultura da Cidade do Recife onde é o editor da Agenda Cultural. Foi produtor de elenco da minissérie "A Pedra do Reino", foi ator no filme "Baile Perfumado", dirigiu peças teatrais e publicou vários livros de poesia. Curiosamente o livro premiado estava engavetado há anos e só agora resolveu publicá-lo. Como eu acredito que tudo tem o seu devido tempo, acho que esse foi o momento certo.

Num país como o nosso, onde cultura e educação só aparecem como prioridade nos discursos políticos, saber do sucesso de alguém conhecido é motivo de alegria para mim, mas saber que o vencedor de um concurso literário é lá das bandas do sertão alagoano me enche de orgulho e muita satisfação. Saber que alguém proveniente da terra em que nasci alcançou o sucesso numa cidade importante como a capital pernambucana é, para mim, a prova de que o talento não é um dom restrito aos nascidos nos grandes centros. Manoel teve e aproveitou as oportunidades, mas tenho certeza que não teve facilidades. Seu sucesso é fruto de muito trabalho, persistência e inteligência.

Ao lembrar-me do meu amigo de infância, hoje mais pernambucano do que alagoano, resgatei a memória de outro amigo cujos laços se firmaram a menos de dois anos atrás. Estou falando de Antônio Hilário, que  nasceu em 11 de abril de 1930 e começou a vida sendo carreiro, na época em que nas estradas do sertão as cargas eram transportadas por carro de bois ou tropas de burros. Um dia, numa conversa, Seu Antônio Hilário contou que fez uma viagem para Garanhuns - PE, para buscar uma carga de café em grãos, café em caroço como ele diz. Apesar do percurso ter aproximadamente 140 quilômetros, a viagem durou nove dias para ir e outros nove para voltar. Permaneceu no ofício de carreiro até 1958, quando então passou a se dedicar à agricultura.

Tendo que trabalhar desde a mais tenra idade, Seu Antônio Hilário não pode estudar, mas é para mim a prova viva do talento humano que aflora nas pessoas, independentemente do grau de instrução, não importando de onde ela veio ou o que ela fez. Certo dia, fui até a sua casa, na companhia de um amigo comum, na zona rural de Santa Brígida - BA. Era apenas uma visita de cortesia, para "jogar conversa fora". Mas conversa de sertanejo é sempre sobre a chuva, a safra, o preço do gado, essas coisas que fazem parte do dia-a-dia das gentes do sertão. Em dado momento ele resolveu contar uma história mais ou menos assim:

"Meu colega, teve um cidadão que, por isso ou aquilo outro, muitas vezes um homem faz a coisa obrigado. Foi um sertanejo que matou uma pessoa, e a pessoa era de "condição". Aí pegaram ele, foi pra cadeia, foi rolando, foi parar no Rio de Janeiro e, naquela época, não existia advogado "no Brasil", mas chegou um homem de fora e foi visitar os presos. Chegou lá, entrou na cadeia, ficou visitando e perguntou uma coisa a um: Por que você tá aqui? Por que você veio prá aqui? De onde é você? Até que chegou onde estava este sertanejo, aí foi onde ele disse que era do sertão mas tava desenganado. Ele perguntou:
 - Tem o dinheiro?
 - Tenho não.
 - Qual é a sua profissão?
 - Minha profissão foi roça e uma viola.
 - E o senhor sabe cantar?
 - Se aparecer uma viola eu digo umas "besteira".
 - "Apois" se aguarde que eu vou arrumar uma viola pra você.
Aí saiu e arrumou a viola e quando ele chegou, entregou a viola, foi quando ele partiu com essa:

Minha alma tem esse suspiro
E de lembrar eu desejo
Eu choro por minha terra
Há anos que não a vejo
São suspiros arrancados
Do peito de um sertanejo

Eu morro e não esqueço
De tudo que ela encerra
Esta santa terra
Meu sagrado berço
Meu sertão de apreço
Solo abençoado
Hoje eu sou proscrito
Arrancando um grito
De um peito cansado

É como de "vera"
Não há mais mimosa
Parece uma rosa
Pela primavera
Oh Deus quem me dera
As cenas dali
Ver o que já vi
Enquanto criança
Porém a esperança
De tudo perdi

A vida lá é descansada
De agosto para setembro
Se bota logo o roçado
E fica "tudo" esperando
A trovoada em dezembro

Um diz, parece
Que vi trovejar
Porque o "visuá"
Presenciei bem
Não fica ninguém
Que não vá olhar
Para observar
Se é chuva que vem

Sopra o vento
Abre o "relampo"
Com pouco é o trovão
Nuvens aglomerando
Tomando de vão em vão
Parece existir
No céu um tesouro
Em seu piso de ouro
Que faz tanto vir

Ensaia primeiro
O mestre cururu
Num TU-RU-TU-TU
Que é um desespero
Chia o caldeireiro
Berra o sapo-boi
Outro diz OI-OI
A rã raspa a cuia
Outro diz FOI-FOI

Mufumbo, ingá
Angico, aroeira
Caatinga um pouco
Demora-se um pouco
Por ser mais ronceira

O agricultor diz amanhã
Eu planto, seja como for
Tenho trabalhador
Eles vão cavando
E eu mais os meninos
Vamos atrás plantando

Diz a mulher
Não vai plantar feijão-de-corda?
Ele diz: só não planto urtiga
Porque não se come
Mas muitas vezes ela
Já matou-lhe a fome

E a riqueza vai aumentando
A chuva caindo no chão
Que quando é no mês de abril
É tanta riqueza, é tanto feijão
É tanta beleza na terra
E em qualquer casinha
Só se vê gritar
Viola tocar
E dançar mulatinha"

Ao terminar a declamação, parabenizei-o pela sua capacidade de guardar na mente uma poesia durante tantos anos. Analisando a transcrição da obra pode-se verificar facilmente que alguns versos não se encaixam bem, houve partes que se perderam com o tempo, mas, ainda assim, ela mantém sua beleza e, por tratar de um tema tão presente na vida do povo do sertão, pode tocar o coração daquele homem que, mesmo endurecido pelo trabalho de sol a sol, foi capaz de manter a sensibilidade para reconhecer a beleza e expressar seus sentimentos através de uma arte que muitas vezes passa despercebida da comunidade culta deste grande país.

Meus amigos, aproveito a oportunidade para desejar-lhes uma ótima semana, parabenizar Manoel Filho pela sua conquista e desejar que a todos nunca falte a sensibilidade para apreciar as diversas e pequenas coisas belas que, com certeza, ponteiam a vida de cada um de nós.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

Sobre o jornalista Manoel Constantino Filho e o livro Anjo de Rua, consulte o endereço: http://www.maltanet.com.br/noticias/noticia.php?id=6813



Escrito por Virgílio Agra às 12h28
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Peça boa

Colegas de todos os tinos comerciais.

Na semana passada, melhor dizer no ano passado, após mais um dia de trabalho, peguei uma carona com minha esposa para voltar para casa. Foi aí que surgiu uma idéia de darmos uma lavada no carro. Seguimos em direção à Pajuçara onde um tradicional posto sempre nos proporciona um bom serviço a preço justo. Enquanto os lavadores faziam o seu trabalho, sentamos numas cadeiras que o estabelecimento disponibilizou. Em dado momento vi quando um dos clientes abriu a mala do seu carro e, de dentro de umas caixas, tirou alguns calendários de mesa. De imediato nos veio aquela vontade de pedir um, mas não tivemos tempo de nos manifestar, pois ele simpaticamente deu a cada um dos clientes um exemplar. Tratava-se de um calendário alusivo aos 160 anos da Santa Casa de Maceió onde, na sua primeira página, havia uma foto do prédio datada de 1851. Agradeci a gentileza e fiz alguns comentários sobre a foto antiga.

Conversa vai, conversa vem, lembrei-me que na Santa Casa trabalha um amigo meu. Perguntei para ao cidadão:

 - O Senhor conhece Silvio?

 - Silvio Melo?

 - Esse mesmo.

 - Você conhece Silvio de onde?

 - Ele é meu conterrâneo. Eu sou de Santana do Ipanema - respondi.

 - Você é de Santana? Eu também sou de lá.

Para aqueles que, infelizmente, não nasceram no interior, vai ser necessária uma pequena explicação. Nas pequenas cidades todo mundo se conhece e isso pode ser ruim a depender dos hábitos que o indivíduo desenvolva, mas isso também proporciona vínculos que às vezes podem ser tão fortes quanto os vínculos familiares. Quando dois matutos se encontram num local distante das suas origens, o sentimento que se tem é como se fosse um encontro de parentes que há muito tempo não se viam. De imediato ele perguntou de quem eu era filho e quando me identifiquei foi que a conversa correu solta porque ele era muito amigo do meu pai. Perguntei seu nome:

 - Antônio Noya, mas me conhecem mais por Toinho Noya.

 - O Senhor é parente de Rubem Noya? - perguntei

 - Ele é meu primo.

Continuamos a conversa até que o serviço da lavagem dos carros terminou e, após nos despedirmos, cada um tomou o seu destino.

Este encontro casual serviu para que eu me lembrasse de Rubem, que eu conhecia desde os tempos de menino quando ele era comerciante de peças automotivas lá na Ribeira do Panema. Eu sempre passava na sua calçada quando ia comprar pão na Padaria Royal, bem ali vizinho. Essas lojas ficavam de frente a um largo no centro da cidade e recebiam toda a tarde a presença enviesada do sol do sertão. Sujeito espirituoso, muito brincalhão, Rubem não dispensava um bom papo, por isso, todas as tardes, quando não tinha ninguém para atender, costumava atravessar o largo em frente para então, do lado da sombra, ia palestrar com outros comerciantes enquanto ficava de olho no negócio.

Nos tempos em que não se falava em "qualidade do atendimento", "satisfação do cliente", SEBRAE, PROCOM e outros termos que se tornaram tão frequentes no nosso linguajar a partir do fim do século XX, Rubem tocava seus negócios usando a máxima que diz: "Perco o amigo, subtenda o cliente, mas não perco a piada". Era comum chegar um cliente a procura de uma peça trazendo outra idêntica na mão. Quando o cabra perguntava:

 - Rubem, você tem essa peça?

Ele de pronto respondia:

 - Tenho não, tenho uma igual a essa.

Contam que certa tarde ele atravessou a rua para bater um papo no lado da sombra quando entrou um cliente na sua loja. Não encontrando ninguém no balcão o sujeito voltou para a calçada e ficou olhando para um lado e para outro procurando quem o atendesse. Enquanto isso, do outro lado da rua, sem interromper a conversa, Rubem tudo observava sem se manifestar. Após alguns minutos de expectativa o tal cliente descobriu onde estava o comerciante e gritou chamando por ele que imediatamente respondeu.

 - Venha aqui.

O rapaz atravessou a rua e perguntou se ele tinha uma determinada peça. Perfeito conhecedor do seu negócio ele respondeu com segurança que sim. Em seguida o sujeito perguntou o quanto custava. Considerando-se a diversidade de produtos e o efeito inflacionário que já rondava este grande país, seria demais esperar que alguém pudesse ter todos os preços de cor. Para responder ao cliente isto significava que ele teria que deixar de lado a conversa e ter que atravessar a rua para consultar a tabela. Foi aí que ele saltou com uma pergunta inusitada:

 - Você vai comprar?

 - Não. Eu só queria ver o preço.

 - Ah! Então se você não vai comprar eu não vou até lá não.

A confusão foi grande e eu até hoje eu não tive oportunidade de saber como terminou a questão. Hoje ele está aposentado, curtindo a vida sobre duas rodas, alegre como sempre e com uma vitalidade de fazer inveja a todos.

Caros colegas, é assim, contando os causos que me vem à mente nas casualidades dessa vida, que venho aqui saudar a todos neste início de ano, desejando que nunca falte a cada um de vocês nem a proteção divina, nem bom humor e nem a esperança de que possamos fazer deste país um bom lugar para se viver.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 10h45
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Para aqueles que gostam de fruta

Colegas de todos os natais

Levante as mãos aquele que, nos tempos de criança, nunca comeu frutas roubadas do quintal do vizinho. Para aqueles que levantaram as mãos eu lamento dizer que vocês não tiveram infância. Apesar de ser um ato que hoje, na condição de adultos, consideraríamos como reprovável, acredito que praticamente todos os garotos que viveram no interior, bem como aqueles que viveram nos bairros mais afastados do centro das grandes cidades, passaram por este importante rito de passagem da infância. Falando sobre essas coisas do tempo de menino, não consigo deixar de me lembrar do meu primo Albertinho, lá da Ribeira do Panema.

Como todos os outros meninos da minha idade, eu também aprontava de vez em quando, mas sempre fui muito cauteloso porque a disciplina imposta pelo meu pai era bastante dura. Mas Albertinho era um caso a parte, parece que a adrenalina dele era mais ativa que a de todos os outros. Certo dia, durante uma conversa, ele contou uma travessura que aprontou para Seu Zelito.

Seu Zelito, cujo nome de batismo é José da Silva, era um sujeito franzino, técnico agrícola, funcionário do Banco do Brasil e casado com Dona Cantionila que todo mundo só conhecia como Nita. Lembro-me dele por dois motivos, primeiro por ser o pai de Sandra uma colega do Curso Primário e segundo pela atenção que ele dedicava às crianças. Lembro-me não apenas da forma como ele me tratava, como também que este tratamento era o mesmo que ele dispensava a todas as outras crianças. Às vezes íamos fazer trabalho escolar na casa de Sandra e o casal sempre demonstrava alegria pela presença da meninada. Eles moravam na Rua Nossa Senhora de Lourdes, que, descendo a rua em que eu morava, era só dobrar na primeira esquina à esquerda. A casa tinha um bom quintal, mas, além disso, ele também era proprietário do terreno que lhe fazia limites pelos fundos, de modo que ele também tinha acesso à Rua Marileide Bulhões, que era paralela à Nossa Senhora de Lourdes. No terreno dos fundos ele mantinha um pequeno pomar e horta, ao qual ele tinha acesso por um portão que havia no muro que separava os dois terrenos.

Albertinho morava exatamente na Rua Marileide Bulhões, e sua casa ficava de frente ao terreno de Seu Zelito. Meu primo desde menino sempre gostou muito de atividades agrárias e, graças a afinidade do seu vizinho com as crianças, costumava ajudá-lo no trato do seu pomar. Era um relacionamento literalmente frutífero para ambas as partes, pois ao mesmo tempo em que ele ajudava o hortelão, este dispensava a ele toda a atenção garantindo que, naquele momento, Albertinho não estaria aprontando nenhuma presepada. Tudo corria bem até que, um belo dia, uns garotos da rua resolveram planejar um assalto noturno às mangueiras de Seu Zelito. Imaginem só quem estava dando consultoria ao projeto da molecada?

Por conta do acesso ao pomar, Albertinho podia comer todas as frutas que quisesse sem o menor constrangimento, mas aquela "operação noturna" fazia o coração pulsar mais forte e as frutas passavam a ter um gosto especial. Na noite combinada ele e mais um grupo de garotos passou por debaixo da cerca do terreno e começaram a subir nas fruteiras. O problema é que o dono do pomar ainda estava acordado e ouviu os inevitáveis barulhos vindos do quintal. Naquele tempo as pessoas viviam sem medo e ele resolveu ir averiguar o que estava se passando. Orientados pelo "consultor", os meninos sabiam que o portão do muro fazia muito barulho ao ser aberto, o que garantiria um bom sinal de alarme para uma necessária fuga. O problema é que Seu Zelito tinha um trunfo que eles não esperavam, havia instalado uma lâmpada no quintal. Quando a lâmpada acendeu foi uma debandada geral, cada um correndo para um lado, todos tentando fugir da cena do crime. Após algum tempo, percebendo que tudo estava calmo, cada um foi para casa como se nada tivesse acontecido.

No outro dia pela manhã, logo cedo, tocou a campainha na casa de Albertinho. À porta estava Seu Zelito, trazendo um saco. Era de se esperar que ele quisesse falar com Tio Alberto, mas, pelo contrario, ele queria falar com o filho e não com o pai. Quando Albertinho chegou à porta teve a maior surpresa, pois Seu Zelito entregou para ele o saco cheio de frutas e foi dizendo:

 - Olhe meu filho! Trouxe isso para você poder comer com seus amigos.

Na noite anterior, uma vez percebendo do que se tratava, Seu Zelito aproveitando-se de algumas brechas do portão limitou-se a observar e identificar os autores do furto e, no outro dia, deu ao seu ajudante de ocasião, de forma sábia e bastante eficaz, uma valiosa lição.

Contando para mim esta história, Albertinho falou que passou a maior vergonha da vida e jurou para si mesmo que nunca mais iria fazer aquilo novamente. Confirmando sua antiga vocação, formou-se em medicina veterinária e atualmente, dentre outros afazeres, cuida com zelo de um sítio que possui nas cercanias de Santana do Ipanema. De vez em quando, ele descobre meninos entrando furtivamente para "roubar" frutas e, na medida do possível, conversa com os garotos orientando sobre o caminho correto para se chegar às frutas, mas, sinceramente, sempre que isso acontece, ele se lembra de Seu Zelito, que hoje morando em Maceió, aos 83 anos, desfruta de uma saúde e uma memória de fazer inveja a qualquer um.


Acho engraçado que, enquanto escrevia esta história, saiu na grande rede uma notícia que, nos Estados Unidos, na cidade de Seattle, um homem enviou para o gerente da loja "Sears" uma cédula de 100 dólares acompanhada de um bilhete, onde o mesmo se desculpava por ter roubado do caixa da loja uma quantia entre 20 ou 30 dólares na década de quarenta. Talvez tomado pelo espírito de natal, o sujeito resolveu colocar no envelope um peso que carregava na consciência a mais de 60 anos.

Caros colegas, o ano está terminando e o mês de dezembro apenas começando. Desejo que o espírito de natal inspire a todos e, na hora em cada um de vocês for escrever suas cartinhas para o Papai Noel, peça para ele levar no seu saco umas frutinhas para presentear alguns políticos deste grande país, porque esperar que eles devolvam, pelo menos uma parte daquilo que roubam, nem daqui a 600 anos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 12h06
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Gato na energia

Colegas de todos os prazeres e ética também

Estou escrevendo hoje para dar uma notícia muito simples e curta a qual eu começaria escrevendo assim: Gato na energia provoca interrupção no...

Como eu falei antes, a notícia "começaria" desta maneira, mas, para minha tristeza, não posso começar assim e preciso explicar o porquê. Estava este simples caeté prestando seus humildes serviços à justiça eleitoral no Fórum Eleitoral de Maceió quando, de repente, faltou energia no prédio. A sala em que eu me encontrava, sem qualquer fonte de iluminação natural, ficou completamente às escuras. Saí tateando, primeiro porque lá dentro não dava para enxergar nada e segundo porque a atribuição de identificar o motivo da interrupção de energia e adotar as providências para o seu devido restabelecimento era minha. O Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas estava, como ainda está, realizando o recadastramento eleitoral com biometria em todo o estado. No momento da falta de energia o Fórum Desembargador Moura Castro estava lotado e, para completar a situação, havia uma fila de eleitores digna de qualquer agência do INSS deste grande país. O prédio de dois pavimentos tem aos fundos, no andar superior, uma espécie de varanda que na verdade é uma área de circulação e quando eu cheguei lá, já havia uma verdadeira platéia instalada, todo mundo olhando para o recinto que abriga a subestação. Quando eu me aproximei uma colega foi logo dizendo:

 - Eu vi um fogo saindo de lá, aí então deu um estrondo.

O ruído do grupo-gerador que é acionado automaticamente para garantir alguns circuitos essenciais, não deixava dúvida, não se tratava de um desligamento de um simples disjuntor, houvera sim uma interrupção na entrada de energia. Comecei a descer as escadas, um colega perguntou o que eu faria e respondi que a primeira coisa a fazer seria inspecionar o local para saber o que acontecera. A resposta foi rápida:

 - Num vá não que pode ser perigoso.

Hora essa, eu, um ex-operador da Subestação Moxotó, lá nas bandas da Cachoeira de Paulo Afonso, não iria me assombrar com uma interrupçãozinha de energia numa subestação de prédio. Primeiro eu tinha de saber o que havia acontecido internamente, para em seguida acionar, caso fosse necessário, a companhia de energia. Ademais, dezenas de servidores e funcionários dependiam do restabelecimento do fornecimento de eletricidade para atender centenas de eleitores. Mandei buscar a chave do portão da subestação, uma demora que daria um capítulo a parte, e finalmente, na companhia de mais uns três colegas entramos na subestação. O barulho do gerador era ensurdecedor e eu primeiro procurei examinar os quadros de comando e distribuição para ver se encontrava alguma irregularidade, mas foi Edvaldo, um colega da informática, quem descobriu o motivo da falta de energia. Um filhote de gato estava estendido no chão próximo ao barramento de 13,8 Kv. O felino havia recebido um choque de 13.800 volts e, por incrível que pareça, estava vivo, deitado e miando. Alguns minutos após a nossa descoberta chegou ao prédio uma equipe da distribuidora de energia que constatou que o curto-circuito provocara a queima de dois fusíveis no poste, duas "tabocas" como dizemos por aqui.

Acredito que o bichano tenha entrado na subestação espremendo-se no espaço entre o portão de acesso e o chão. Internamente a chave seccionadora, o disjuntor, o transformador e o gerador são separados uns dos outros por paredes e, na parte da frente de cada um deles, existe outra grade telada que vai do chão até a altura das paredes divisórias. Uma vez dentro do recinto o gato deve ter escalado a tela interna, resolveu dar um pulo sobre o barramento de 13,8 Kv e kabuummm. Eu tenho certeza que se fosse eu, ou um de vocês, que tivesse levado um choque daqueles, teríamos partido para o "beleleu" de imediato. Mas como os gatos têm sete vidas esse gatinho, apesar dos sinais visíveis de queimaduras nas patas, ainda conseguia andar se arrastando.

Uma vez levantada a situação fomos à ação. Eu, Edvaldo e Otaviano, nosso eletricista, além dos colegas da companhia de distribuição desencaixamos a tela do compartimento do disjuntor e puxamos o gato para fora. Uma vez eliminado o problema, novos fusíveis foram colocados e se fez a luz.

Considerando-se que aqui no Brasil uma ligação clandestina de energia é chamada de gato, se eu começasse escrevendo que um gato na energia havia provocado a interrupção dos trabalhos de recadastramento biométrico em Maceió o que vocês iriam pensar? Eu aposto que todos, sem exceção, iriam pensar que o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas estaria furtando energia elétrica e eu com certeza não poderia permitir que pensassem isso da instituição à qual eu sirvo. É por isso que no início deste texto eu falei que a notícia era simples e curta, mas por uma questão de ética eu jamais poderia ter começado a escrevê-la da forma como eu gostaria, mas vocês têm que admitir, seria prazeroso começar escrevendo assim. Para evitar um mal entendido, preferi me privar deste prazer e escrever o fim da história primeiro, para depois escrever o começo.

Somente para finalizar, gostaria de informar que uma colega compadeceu-se do gato e levou-o a um veterinário para tentar sarar suas feridas, mas Arrepio, como foi batizado, terminou morrendo alguns dias depois. Moral da história, gato na energia dá uma confusão da peste.

Caros colegas, àqueles que têm em casa algum tipo de bicho de estimação sugiro cuidado e, para todos, uma ótima semana com boa energia.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra


Escrito por Virgílio Agra às 11h42
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O descarrego do encarregado

Colegas de todas as ambições

Na era da informação, globalização e estresse o sucesso é cada vez mais visto como uma meta obrigatória a todo ser vivente. Mas o que é o sucesso? Como não tenho nenhuma formação que me permita apresentar aqui a definição definitiva, acho melhor vocês procurarem um cara do tipo do Max Gehringer, a quem cito não por ironia ou desdém, mas por uma sincera admiração. No entanto, eu me permito comentar que para muita gente neste mundo o sucesso está associado ao resultado de uma equação onde não podem faltar duas importantes variáveis: o dinheiro e o poder.

Refletindo sobre recentes acontecimentos da minha vida, detalhes, deixa para lá, lembrei-me de um rapaz que conheci no tempo em que compus os quadros da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, CHESF, lá pras bandas da Cachoeira de Paulo Afonso. Joel Torquato era Operador de Usina na mesma unidade da CHESF em que trabalhei. Como o trabalho de operador era exercido em ambiente de periculosidade, essa categoria tinha direito a uma aposentadoria especial, de modo que quando comecei a minha carreira, Torquato estava encerrando a sua. Não tivemos oportunidade de trabalharmos juntos, mas isso não impediu de conhecê-lo socialmente nem de conhecer algumas de suas histórias.

Trabalhar numa usina hidrelétrica é uma experiência semelhante a viver numa terra de gigantes. Tudo lá dentro é enorme e tanto as forças que movimentam suas máquinas, como a energia que lá é produzida tem dimensões titânicas. A usina trabalha vinte e quatro horas por dia e as equipes de operação se revezam continuamente no seu controle. Os candidatos a operadores, naturalmente, são submetidos a um treinamento prévio antes de ingressar na carreira. Uma vez efetivado no cargo, o indivíduo é classificado como Operador I e, de acordo com o seu desempenho e com as oportunidades, o mesmo poderá galgar novas classificações que significam maior remuneração e também mais responsabilidade. Dentro desse contexto, cada equipe de operadores é composta por vários elementos, sendo que aquele que é mais experiente exerce o comando da equipe e é denominado de Encarregado de Turno. No comando da unidade de geração como um todo, tem também a figura do Encarregado da Usina, cargo que também é exercido por um operador, a quem cumpre responder por toda a operação perante o serviço de engenharia da empresa.

Quando fui trabalhar na Usina Apolônio Sales, o meu treinamento foi aplicado por Guabiraba, cabra nascido e criado dentro do sistema CHESF e conhecedor profundo de todas as minúcias do funcionamento daquela usina. Pouco tempo após a minha efetivação na empresa, Guabiraba aposentou-se, mas, além das grandes lições que me deixou, tem também uma história do tempo em que ele foi o Encarregado da Usina.

Contam os meus antigos colegas da Operação que, certo dia, diante da aposentadoria de alguns antigos operadores, a fila andou e Guabiraba anunciou para Torquato que ele seria, a partir de então, o novo encarregado do seu turno. Para tomar aquela decisão o chefe levou em consideração tanto o tempo quanto a experiência que o operador acumulara ao longo de muitos anos de serviço. Com certeza, a decisão foi tomada baseada em fatores inquestionáveis, pois Torquato conhecia muito bem aquele gigante de concreto e aço. O problema é que nesta tomada de decisão não foi levado em consideração uma variável extremamente importante, a ambição do indivíduo. Por favor, não estou aqui falando em ganância, mas sim no desejo legítimo de se ter ou possuir alguma coisa. Joel Torquato tinha de fato todos os requisitos técnicos necessários ao exercício do comando de um turno, mas ele sabia que o desfrute daquela posição implicava em responsabilidades bem maiores e este encargo ele simplesmente não almejava. Não se sabe o porquê dele não ter recusado de imediato, mas o certo é que Torquato aceitou, ou seria melhor dizer, acatou a missão.

Eu tenho a absoluta certeza que cada um de nós conhece pelo menos uma pessoa capaz de "vender a própria mãe" só para usufruir do binômio "dinheiro - poder". O problema é que Joel simplesmente não se enquadra nessa categoria de pessoas. Dinheiro para garantir o sustento digno da sua família ela já obtinha honestamente no exercício do seu ofício. No tempo em que ele ingressou nos quadros da CHESF a companhia proporcionava casa aos seus funcionários e, graças a essa regalia, ela já usufruía de uma boa casa, numa rua tranquila e arborizada em frente a um lago. A função de Encarregado de Turno conferia-lhe uma prerrogativa hierárquica, podendo também servir de meio para atingir alguma promoção, mas ele simplesmente estava satisfeito com aquilo que já obtivera.

Os turnos se passaram e o Encarregado da Usina começou a se preocupar com o desempenho do novo Encarregado de Turno. Dedicado e detalhista como era, eu fico só imaginando o estado de espírito em que se encontrava o meu treinador. Dia vai, dia vem e Guabiraba ficava cada vez mais irrequieto, parecendo mais uma galinha quando quer por. Torquato por sua vez ia cumprindo turno após turno, arranjando um jeito de driblar as situações de estresse que porventura aparecessem. É lógico que essa situação não poderia continuar, mas, como um grande ser humano, Guabiraba sentia-se imensamente constrangido em ter que destituir o colega. O tempo continuou passando e diante da persistência do quadro ele tomou a decisão e resolveu ter uma conversa com o rapaz. Puxou ele para um lado, começou a falar sobre a usina, sobre o trabalho, arrodeou, fez mil voltas enquanto procurava coragem para comunicar ao colega sua decisão. O tempo todo ele ficava imaginando qual seria a reação de Torquato quando a destituição fosse informada. Respirou, criou coragem e finalmente deu seu veredito: a partir daquele dia ele não seria mais o encarregado daquele turno. Ouvindo aquelas palavras Torquato olhou para ele e disse:

 - Muito obrigado Guabiraba, você tirou um grande peso das minhas costas.

Resposta inesperada, alívio para ambas as partes.

Daí em diante o tempo seguiu sua marcha e, finalmente, Torquato alcançou sua merecida aposentadoria. Hoje, ainda desfrutando de bastante vigor físico, dedica-se a duas paixões, a família e o motociclismo, enquanto continua morando naquela mesma casa em frente ao lago.

A propósito, segundo Max Gehringer, embasado num livro escrito há 2.300 anos, "sucesso é o sono gostoso, se a fartura do rico não o deixa dormir ele estará acumulando ao mesmo tempo a sua riqueza e a sua desgraça".

Numa era onde o sucesso é tratado não como um prêmio, mas sim como obrigação, encaminho a todos um abraço forte, muita energia e o desejo de que cada um obtenha, na devida medida, muito sucesso.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra


Escrito por Virgílio Agra às 23h25
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O fogueteiro e o andor de Senhora Santana

Colegas de todas as orientações religiosas.
 
Aconteceu nos tempos em que eu era menino, usando calças curtas e cabelo raspado na máquina zero, sobrando apenas um tufo de cabelo no cocuruto. Era dia da padroeira de Santana do Ipanema e as ruas da cidade estavam tomadas por uma multidão acompanhando a procissão. Nos tempos que em que não havia trio elétrico, nem paradas de orgulho de qualquer coisa, era a fé do povo, o carisma do Padre Cirilo e o andor ornamentado por Dona Glacira que atraiam gente de toda a região daquele sertão alagoano. Era muita gente e, como eu era pequeno, tenho certeza que tinha alguém segurando minha mão. A bem da verdade não me lembro de quem era a mão, mas sou capaz de apostar de olho fechado que era a mão de mamãe, porque zelosa como era, e ainda hoje é, não acredito que ela delegaria este encargo para "Seu Ninguém". Eu me lembro bem das pessoas acotovelando-se para chegar perto da santa, alguns tentando apenas tocar no seu andor, enquanto outros faziam questão em carregá-lo, revezando-se continuamente no cumprimento de tamanha honraria. Apesar da aglomeração e do aparente caos, havia um preceito coletivo que garantia o direito de cada um carregar a imagem de Senhora Santana durante um trecho do seu longo cortejo.
 
Papai nunca gostou muito de multidão e, por uma questão de prudência, preferia acompanhar a procissão guardando certa distância daquela aglomeração em torno da santa. Hoje, depois de tantos anos, eu acho que faria a mesma coisa, mas naquele dia minha vontade era exatamente o oposto. Eu queria acompanhar a procissão ao lado da santa, admirando a charola e vendo o revezamento frenético dos homens que a carregavam. Quando eu disse o que queria, minha mãe deu a resposta mais previsível do mundo:
 
 - Não.
 
Mas aquele dia de julho de um ano qualquer da década de 60 foi diferente de tantos outros. Eu estava determinado a fazer o que queria e passei a insistir. Não sei se por ficar incomodado com a minha insistência, ou por achar que aquela oportunidade poderia ser um bom treino para minha vida futura, papai decidiu que eu poderia sozinho acompanhar a procissão. Sabendo que ela terminaria na praça em frente à Igreja Matriz, antes que me deixasse partir falou:

 - Vá e quando a procissão terminar, a gente espera você em frente ao Ferrageiro.

Referia-se à sua loja que ficava exatamente em frente à igreja, do outro lado da praça. Acatei sua ordem e rapidinho me embrenhei na multidão, subindo e descendo as ladeiras da cidade. Apesar daquela decisão não ter tido a concordância do lado materno dessa história, eu acho que papai sabia que eu já conhecia o traçado de todas as ruas do bairro, como também que aquela situação seria importante não apenas como uma experiência para mim, como também para eles.

Naquele tempo, um elemento que não podia faltar nas procissões era o fogueteiro. Este profissional ia acompanhando a procissão e, de tempos em tempos, soltava um foguete, cujo estouro servia para avisar a população tanto do início como da aproximação do cortejo. Apesar de eu já entender essa dinâmica, confesso que nunca tinha visto alguém soltar um foguete. Após percorrer uma rua ou duas de olho fixo no andor, minha atenção foi atraída pelos "papoucos" dos foguetes. Comecei a prestar atenção nas suas trajetórias até que consegui chegar perto do fogueteiro que, se não falha a memória, era conhecido como "Seu Zezinho". Na verdade ninguém chegava perto demais, o sujeito e seu ajudante garantiam uma verdadeira clareira naquela floresta humana. Vi vários foguetes subirem chiando em direção ao céu, vi um deles explodir antes de ganhar altura e vi os "cotocos" de dedos na mão de Seu Zezinho, observações suficientes para satisfazerem a minha curiosidade e despertarem a minha prudência.

Acho que aquele dia foi importante para um bocado de gente. Foi importante para o povo do sertão que, por devoção ou fé reverenciava a santa padroeira. Foi importante para papai que colocou pela primeira vez à prova aquilo que viria a ser a minha independência. Foi importante para mim que pude corresponder à sua expectativa e foi importante para minha mãe, que nesse dia acompanhou a procissão rezando com mais fervor. Após tantos anos isso pode parecer para alguns apenas uma história besta de menino, mas, na verdade, aquela situação foi para a história da minha vida uma dentre tantas lições que aprendi com meu pai, a quem agradeço não apenas pelas suas lições, mas também pelo seu exemplo.
 
No último mês de agosto papai completou 78 anos. Desejei dar uma passadinha no sertão para lhe dar um abraço, mas minhas férias tinham acabado e eu já havia retornado ao meu trabalho. Queria estar junto dele, relembrar velhas histórias e, quem sabe, ouvir novas, que pudessem um dia ser recontadas, transmitindo memórias, lições e registrando para a posteridade os diversos personagens que compõem a história do sertão. Lembro-me que diante de uma ocasião semelhante ele foi taxativo:
 
 - Primeiro vem a obrigação, depois a devoção.
 
É por conta de lições como essas, que tenho que me contentar em compensar a distância que nos separa escrevendo meus causos, lembrando o tempo em que eu andava pelas ruas segurando nas mãos de papai e mamãe. Tanto eu, como eles, gostaríamos de estar mais próximos uns dos outros, mas ambos sabemos que mais importante do que o tempo que passamos juntos é aquilo que vivemos quando estamos juntos.
 
Meus colegas, mais uma vez gostaria de desejar a todos uma boa semana e, ao mesmo tempo em que homenageio meu pai pelos seus 78 anos, peço as orações de todos em prol da minha mãe, que hoje estará se submetendo a uma cirurgia delicada


Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 11h58
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Um legião de estrangeiros

Colegas de ambos os lados do mar

Se alguém disser para vocês que, falando inglês, vocês vão para qualquer parte do mundo, eu aviso, é mentira. Na viagem empreendida por este caeté e família ao Velho Continente, confesso que o meu "do you speak english" foi muito útil na Holanda, mas nos demais países a conversa foi outra. Nas terras italianas a responsável pela pousada onde nos hospedamos era colombiana e aí apelamos para o velho conhecido "portunhol", mas, nas ruas de Roma, a origem latina comum ao italiano e ao português falou mais alto que as receitas prontas dos adeptos da língua de Shakespeare.

Tanto a semelhança entre os idiomas quanto o jeito comunicativo dos italianos, bem parecido com o jeito dos brasileiros, facilitou muito a comunicação, mas não impediu que nos atrapalhássemos em alguns momentos. Por indicação do dono da pousada, fomos a uma lanchonete que tinha um sorvete fabuloso. Chegando lá, a casa estava cheia e os funcionários corriam de um lado para outro tentando atender a todos. A coisa tava de um jeito que entender como o serviço funcionava já foi uma conquista, mas o problema maior era saber quais eram os sabores dos sorvetes, porque em cada um deles havia uma plaquinha escrita apenas em italiano. Com a ajuda de uma portuguesa que estava na fila consegui identificar alguns sabores, sendo alguns velhos conhecidos e outros que eu nunca tinha ouvido falar. Porém, tinha um sorvete de cor vermelho vivo que me dava água na boca só de olhar, com uma plaquinha escrita a palavra FRAGOLA. Eu olhava aquele sortimento todo e os olhos só paravam no tal do FRAGOLA. O único "Frajola" que eu conhecia era o parceiro do "Piu-piu" dos desenhos animados e a portuguesa já tinha saído e eu não tinha como tirar a dúvida. Finalmente resolvi escolher este sabor e qual não foi minha surpresa, quando descobri que FRAGOLA era MORANGO, um sabor que eu conhecia desde menino quando chupava picolé da Sorveteria Maringá lá em Santana do Ipanema.

Quando saímos de Roma, passamos por Florença onde, além de nos deliciarmos com o acervo de obras de arte da família Médici, aproveitamos a oportunidade e fomos a uma feira local onde compramos presuntos e pães feitos em casa e vendidos pelos próprios produtores, a exemplo do que ocorre nas feiras livres em qualquer parte do mundo. Quando nos apresentávamos como brasileiros todos sorriam e nos dispensavam uma atenção toda especial.

Florença também serviu para mim como ponto de partida para uma visita aos campos de batalha da FEB na Segunda Guerra Mundial. Graças ao apoio do ítalo-brasileiro Mário Pereira, pude conhecer os principais pontos onde se deram as batalhas dos nossos pracinhas. Foi um passeio inesquecível, não apenas pela beleza da região e pelas histórias contadas em detalhes por Mário, mas o fato de ter um tio que participou daquelas batalhas me proporcionou a grata oportunidade de resgatar nas terras d'além mar, um pouco da história da minha própria família. Outra coisa muito boa foi sentir a atenção que as pessoas daquela região dispensavam a nós "brasilianos". Confesso que me senti orgulhoso de ser parte deste grande país, cujos filhos conseguiram firmar laços de fraternidade com um povo distante, apesar de todos os obstáculos, inclusive linguísticos.

Finalmente chegamos à França e acho que foi em Paris o lugar onde tivemos a experiência linguística mais interessante. Eu sempre tinha ouvido dizer que os franceses não gostavam de falar inglês e algumas fontes chegavam a referir-se a uma suposta "má vontade" dos franceses em falar numa língua diferente da sua própria. Porém, minha filha já tinha me alertado que eles tinham certa dificuldade em lidar com a língua britânica e eu, sinceramente, acho que esta hipótese tem algum fundo de verdade. O proprietário do apartamento que alugamos em Paris, Sr. Edgard, por exemplo, foi de uma gentileza exemplar, no entanto, na hora de nos comunicarmos tínhamos que usar um misto de inglês, espanhol, português, mímica e boa vontade, porque a dificuldade de comunicação era enorme, apesar do esforço que todos desprendiam.

Quando da nossa passagem pelas terras gaulesas, já tínhamos cumprido mais da metade do nosso roteiro de férias e isso permitia fazer algumas comparações na nossa experiência linguística. Se na Holanda o idioma era impronunciável, os batavos compensavam falando inglês. Da mesma maneira, os cardápios, folhetos turísticos e até algumas placas indicativas eram escritas em holandês e em inglês e isso nos permitiu conhecer muito daquele pequeno e belo país. Na França a situação era quase inversa, não falávamos nada em francês e era raro encontrar nas ruas quem falasse inglês, mas, por outro lado, nos museus que visitamos tivemos uma grata surpresa, lá encontramos não apenas atendentes que falavam português, mas também havia folhetos, catálagos, audio-guias e livros com o acervo dos museus tudo em português.


Outro aspecto interessante que pudemos observar nas terras européias foi o comportamento do mercado informal. Enquanto que na Holanda era proibido pedir esmolas, em Roma pudemos ver profissionais da mendicância nas ruas. Por sua vez, o comércio ambulante na Cidade Eterna era praticado principalmente por pessoas de origem asiática, já em Paris o mercado informal era dominado pelos africanos. Quando estávamos no Trocadero, um parque elevado de onde se avista a Torre Eifel e o seu entorno, um vendedor ambulante ouviu o nosso falar e aproximando-se falou com sotaque;

 - Brasileiro.

Era um jovem de uns vinte e poucos anos e pela cor não deixava dúvida, era africano legítimo. O cara era preto de um jeito que eu não me lembro de ter visto um igual aqui no Brasil. Puxei conversa e fiquei sabendo que ele era do Senegal, antiga colônia francesa. Ele contou que veio para a França porque na sua terra natal não havia oportunidade de trabalho, mas a vida na Cidade Luz não era mole não. De fato, quando eu estava ao pé da Torre Eiffel, observei uma estranha movimentação dos vendedores ambulantes. Todos começaram a caminhar numa só direção, apressadamente, como se estivessem em fuga. Ficou claro para mim que havia chegado à área algum tipo de fiscal da prefeitura. Após algum tempo, percebendo que os "homi" tinham ido embora, os camelôs começaram a voltar como uma onda que vai e depois vem. É muito engraçado país do primeiro mundo, até ambulante quando foge do "rapa", o faz discretamente. De uma maneira geral, no exterior as pessoas têm o Rio de Janeiro como cidade de referência do Brasil, o jovem senegalês, pelo contrário, citou a cidade de Salvador. Como prova da afinidade entre a Bahia e a África, em dado momento da nossa conversa ele chegou a cantarolar o refrão da música "Canto para o Senegal". Após os cumprimentos de praxe o jovem seguiu o seu caminho batalhando o seu sustento e eu segui o meu, somando mais uma vivência numa viagem rica, culturalmente.

Outro aspecto interessante observado no mercado informal parisiense, foi a presença de artista populares batalhando uns trocados nas suas ruas e metrô. Nos nossos deslocamentos metroviários frequentemente embarcava no mesmo vagão algum artista que tocava uma musiquinha e depois passava o chapéu para colher umas moedas. Coincidentemente, tinha uma estação onde sempre embarcava o mesmo artista, portando uma caixa de som onde tocava um "play back" e ele cantava La Bamba, toda vez.

Aproveitamos muito bem cada minuto que passamos na capital francesa até que chegou a hora de embarcar num trem velocíssimo em direção à Bélgica onde fomos conhecer a cidade medieval de Brugges. Mais uma vez não vou desperdiçar o tempo de vocês descrevendo os encantos de uma "cidade cartão postal', mas não poderia deixar de comentar o quanto foi bom caminhar em ruas onde várias casas ostentavam datas de mais de trezentos anos, comer comida irlandesa e tomar cerveja belga produzida pela Inbev, a multinacional belgo-brasileira da cervejaria. Coisas do mercado global... coisas do mercado global.

É, pois, escrevendo esta quarta narrativa, que concluo as aventuras deste simples caeté nas terras d'além mar. Desejando que todos tenham uma ótima semana e que aproveitem bem todas as lições que a vida nos proporciona, tanto de um lado, como do outro do mar.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 18h28
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E os meus caminhos me levaram a Roma

Colegas de todos os caminhos

Será que todos os caminhos levam a Roma? Não sei se "todos", mas o meu percurso no velho continente passou por lá.

Chegamos a Roma numa manhã de muito sol prenunciando qual seria o clima da nossa estada na terra dos Césares. Pegamos um ônibus no aeroporto de Ciampino até a estação Termini, no centro da cidade, de onde fomos caminhando até a nossa pousada, localizada estrategicamente para facilitar nossos deslocamentos.

Após nos alojarmos demos uma volta na vizinhança onde descobrimos uma pizzaria simples, porém muito acolhedora, de propriedade de um egípcio chamado Mohamed. Após recarregarmos as baterias, de posse de um mapa e dicas dadas pelo pessoal da pousada, fomos "bater perna" pelas ruas de Roma. Caminhar pelas ruas de uma cidade tão antiga já é em si um grande atrativo turístico, mas nós não poderíamos deixar de aproveitar a oportunidade para visitarmos algumas igrejas que, com certeza, teriam muito a enriquecer o passeio. O problema é que, por conta do calor, minha esposa e uma das filhas resolveram usar shorts e camiseta, trajes pouco adequados à visita a um templo. Elas só não ficaram do lado de fora porque os padres, cansados dos problemas que a limitação ao acesso provocava, passaram a disponibilizar peças de tecido que os visitantes usavam para cobrir pernas e ombros. Resolvido o problema, após uma tarde de muita caminhada, fotos, comentários e todo o ritual próprio de quem descobre um novo mundo, pegamos um metrô e fomos visitar a mais famosa fonte de Roma.

Aqui no Brasil nos acostumamos a não confiar na água fornecida pelas empresas de abastecimento nacionais, sentimento importantíssimo às empresas que comercializam as águas minerais. Na Europa, pelo contrário, a água da torneira é sempre de boa qualidade e comprar água engarrafada pode satisfazer um hábito tupiniquim, mas não é nada racional. Ao longo de toda a viagem nunca nos separamos das nossas garrafinhas que eram regularmente abastecidas nas fontes, pousadas e mesmos nas torneiras dos bares, lanchonetes e restaurantes onde nos alimentamos. Naturalmente, algumas fontes não têm água adequada ao consumo, mas a potabilidade da água, ou não, encontra-se normalmente sinalizada. A Fontana di Trevi é um desses exemplos de fonte cuja água, atualmente, não deve ser consumida. No passado, no entanto, era lá onde jorrava água de boa qualidade trazida por um aqueduto romana desde antes da era cristã. No século XVIII foi construído um monumento para decorar a fonte que transformou o local num dos pontos mais charmosos da cidade. O local é simplesmente lindo, mas a "mundiça" de gente é tão grande que termina por prejudicar a beleza do local. Para completar, espalharam o boato que aquele que fica de costas para a fonte, faz um pedido e joga uma moeda na água por sobre a cabeça tem o sonho realizado. O resultado é que em redor da fonte fica um monte de gente besta jogando moeda na água como se esse gesto fosse resolver os problemas do mundo.

No dia seguinte pegamos um metrô próximo da pousada e fomos caminhar nas ruínas do Palatino, Fórum Romano e Coliseu. Tentar descrever tudo que foi visto ou apreendido na visita àquele parque arqueológico geraria um texto tão longo que se tornaria enfadonho, mas teve umas coisinhas que eu não sabia e que me chamaram a atenção. Enquanto os templos e grandes monumentos eram construídos de pedra, conforme consta nas fotos dos livros de história, pude observar que as residências eram construídas em alvenaria. As paredes eram construídas como se fosse um sanduíche, sendo a parte externa construída de tijolo e o miolo era preenchido com uma argamassa misturada com pedras ou pedaços de tijolos, a exemplo de como é, nos dias de hoje, uma argamassa de concreto. Ao atingir a altura desejada, as paredes eram unidas por arcos podendo a parte de cima ser também preenchida com aquela argamassa, formando uma laje que poderia servir de base para a construção de um novo andar. O fato é que pude observar que esta técnica permitia a construção de edificações muito altas, o que equivaleria, com a tecnologia de hoje, a prédios de vários andares.

O nosso último dia em Roma foi escolhido para nossa visita ao Vaticano. Acreditávamos que, por ser uma segunda-feira, haveria menos gente nas filas para a entrada do museu... ledo engano. Pegamos o metrô bem cedo e quando chegamos ao local a fila já estava dobrando a esquina, mas, apesar de longa, caminhou relativamente rápida. Na compra dos ingressos fiquei surpreso quando o atendente, literalmente, jogou os bilhetes sobre o balcão. Vocês sabem aquele jeito que jogador de baralho faz quando joga sobre a mesa aquela cartada que encerra a partida? Só faltou o cara gritar:

 - BATI.

Paguei a quantia e peguei os ingressos meio desconfiado. Pensando, o que teria acontecido para o rapaz proceder daquela maneira? Felizmente, após observar melhor outras pessoas e outros lugares, percebi ser um jeito italiano sem nenhuma maldade, apenas diferente daquilo ao qual eu estou acostumado.

Já tinha ouvido falar que no Vaticano tinha muito ouro, metais e pedras preciosas. Confesso que não foi exatamente isso o que vi. Pude apreciar muitas obras de arte que, pelas suas qualidades, são de valor inestimável, mas na sua grande maioria eram pinturas nas paredes e tetos, retratando passagens bíblicas, elaboradas por grandes mestres das artes. Mas uma característica do museu fez com que eu me sentisse no carnaval de Salvador. A quantidade de gente era tão grande que se o cabra levantasse o pé do chão, iria até o final da galeria num pé só.

Ao sairmos do museu demos a volta no quarteirão que compõe o Vaticano e fomos à Basílica de São Pedro. Como em outras igrejas de interesse histórico e artístico, havia peças de tecidos para cobrir as pernas e ombros desnudos dos desavisados, só que dessa vez a minha turma estava prevenida. O curioso é que, apesar da limitação à exposição do corpo em carne e osso, quando se tratava de nudez em mármore a tolerância era bem maior, eis que a basílica era decorada com várias esculturas com figuras femininas com os seios nus. Falando em escultura, além da Peitá, de Michelângelo, obra maravilhosa que dispensa comentários, havia uma estátua de São Pedro em condições bastante interessantes. Produzida em mármore no século XIII, ao longo do tempo peregrinos beijaram e afagaram tanto os pés do santo que terminaram desgastando os dedos do coitadinho. Resultado, São Pedro tá lá, sentadinho, só com os cotocos de pés, sem um dedo sequer.

Roma é, sem dúvida nenhuma, uma cidade única. Com sua história milenar, proporciona aos seus visitantes tanto o contato com o que existe de melhor na história, na arte e na cultura, como também com problemas tão frequentes nas grandes cidades. Diferentemente das terras batavas, plana e cheia de bicicletas, a Cidade Eterna é situada em terreno ondulado. Este fator, aliado a uma população de quase três vezes a de Amsterdã, influencia fortemente no trânsito da cidade onde chama a atenção a grande quantidade de motonetas e mini carros. Enquanto na Holanda os ônibus passam nos pontos em horários precisos a realidade romana não foge àquilo que temos no transporte público deste grande país. Os ônibus atrasam, vêm lotados e têm um sistema de tarifação que acredito, propicia uma severa evasão de receita. Foi lá onde mais caminhamos e foi de lá que partimos num trem excelente a mais de 230 quilômetros por hora. Não sei se todos os caminhos levam a Roma, mas achei bom que os meus passaram por lá.

Caros colegas, ao mesmo tempo em que desejo a vocês uma boa semana, espero que o criador ilumine o caminho de todos.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 10h50
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Histórias da guerra e degustações de cerveja

Colegas de todos os pontos de vista

Se tem uma coisa que eu aprendi ao longo da minha vida é que uma viagem pode proporcionar muito mais do que aquilo que está disponível nas galerias dos museus, nas mesas dos restaurantes e nas paisagens do tipo "cartão postal". Durante minhas férias nas terras d'além mar, na medida das minhas limitações, procurei ficar atento às oportunidades de interagir com os habitantes dos lugares onde passei, ao mesmo tempo em que procurei observar o cotidiano dos lugares onde passei, retirando desse contato conhecimentos importantes que jamais constarão num catálogo turístico.

Foi numa manhã de quarta-feira, dia de São Pedro, que partimos de Amsterdã para dar a volta por outros países da Europa. Pegamos um trem para Helmond, depois um ônibus até Asten no sul da Holanda, onde fui encontrar uma pessoa que não via há uns 20 anos, a minha querida Irmã Letícia, fundadora e diretora da escola em que cursei o ensino primário. Não vou aqui discorrer sobre a emoção de poder abraçá-la e poder ouvir sua voz novamente, porque emoção é sentimento e isso não tem como ser descrito. Mas eu não poderia deixar de comentar o quanto a nossa chegada foi festejada, não de maneira formal, mas pela maneira afetiva com que nos trataram. Alguém lembrou que naquele dia a Congregação estava completando 50 anos do início das suas atividades no Brasil e isso foi motivo para mais alegria. Ao comentar com Irmã Letícia sobre o tratamento que nos era dispensado ela simplesmente disse:

 - Quando fomos para outros países como missionárias, criamos laços afetivos com as pessoas desses países, de modo que, quando elas vêm até aqui, são como parentes nossos que nos visitam e como todas nós somos irmãs é como se vocês fossem familiares delas também.

A casa onde as freiras vivem é algo totalmente diferente daquilo que eram os antigos conventos. A Casa Mãe, como é chamada, é um conjunto de prédios de três pavimentos, dotado de portaria, refeitório, elevador, lavanderia, capela e todos os equipamentos necessários a garantir uma morada decente aos os seus residentes. Além do conjunto de prédios há também uns jardins, um pomar, um pequeno bosque e um cemitério onde, além dos túmulos, tem também um muro onde constam os nomes daquelas que morreram longe da sua pátria. Se alguém pensava que as freirinhas vivem lá apenas a rezar se enganam. Aquelas que ainda têm condições executam alguns trabalhos, colaborando assim com os serviços da casa e quem quiser conversar com elas fique a vontade, pois elas estão ligadas nas notícias do mundo inteiro.

Durante nossa permanência em Asten aproveitamos para dar uma volta na pequena cidade. Nossa primeira parada foi uma igreja consagrada a Nossa Senhora da Apresentação, construída em estilo gótico, com belos vitrais e toda a grandiosidade desse estilo arquitetônico. Convém citar que na Holanda o lado norte é predominantemente protestante enquanto o lado sul é católico. Após uma volta na praça e uma xícara de café, voltamos a caminhar e avistamos um pequeno parque com um monumento que nos chamou a atenção. Constava de uma figura humana deitada sobre uma placa de pedra em cuja borda estavam gravados vários nomes de pessoas e umas datas. Percebi que eram datas de nascimento e morte sendo que estas últimas coincidiam com o período da Segunda Guerra Mundial. Eu sabia que aquela região tinha sido palco de combates na guerra, particularmente durante a famosa Operação Market-Garden, aquela da ponte longe demais. Fotografei o monumento e depois perguntei a Irmã sobre o que ele tratava. Ela me contou que durante a guerra o prefeito da cidade ajudava clandestinamente aqueles que eram perseguidos pelos invasores. Quando os alemães descobriram, arrastaram-no até aquele local, executaram-no e, durante muito tempo, não permitiram que o seu corpo fosse removido para sepultamento. Após a guerra a população de Asten ergueu o monumento homenageando ele e todos os cidadãos da cidade que tombaram vítimas do nazi-facismo.

A Segunda Grande Guerra é um evento muito importante na história do século vinte e eu já havia lido muito sobre ela. Mas, apesar de já ter se passado quase 70 anos, confesso que me perturbou um pouco ver de perto locais que foram cenários dos seus terríveis acontecimentos. Eu sabia que Irmã Letícia tinha vivenciado a guerra, mas naqueles dias em Asten foi a primeira vez, como adulto, que eu tive a oportunidade de conversar com ela sobre este assunto. Ela contou que seu pai tinha uma boa condição financeira, mas a escassez de comida era tanta que sua família passou fome. Próximo a sua casa morava uma mulher que, provavelmente pela falta de comida, estava doente. Seu marido não trazia comida para casa, talvez porque não conseguisse, talvez porque comesse tudo o que porventura conseguia. Solidária com a situação da mulher, sua mãe separava um pouco daquilo que tinham e mandava que Letícia levasse para ela. Temendo que o marido comesse aquilo que era enviado, esperava que o homem saísse de casa e mandava a menina com a orientação de que só voltasse após a mulher comer tudo, dando a desculpa de que era para trazer de volta a vasilha. Seguindo o mesmo pensamento humanístico um dos seus irmãos começou a participar de uma organização clandestina que ajudava judeus e outros perseguidos pelos nazistas. Seu pai sabia das atividades do filho e guardava sigilo para sua própria segurança, até que um dia ele foi preso pelos alemães e levado para um campo de concentração. Após a guerra, a mulher disse que eles foram anjos enviados por Deus para trazê-la de volta à vida, porém seu irmão nunca voltou para casa. A família soube que ele morreu no campo de concentração e foi enterrado numa vala com outras vítimas, seu corpo nunca foi identificado.

Partimos de Asten de manhã em direção à Dusseldorf, Alemanha, onde minha prima Andréia nos esperava. Nossa passagem pela Alemanha seria breve, visto que, no dia seguinte, já tínhamos um vôo marcado com destino a Roma, mas uma visita à cidade de Colônia superou qualquer expectativa, por mais otimista que fosse. Àquela altura eu não poderia imaginar que a Catedral de Colônia seria o mais grandioso monumento que eu iria conhecer em toda aquela viagem.

Do mesmo jeito que os batavos do outro lado da fronteira, os germânicos também têm muitas cicatrizes da história do último século. Colônia foi simplesmente arrasada pelos bombardeios, as pontes sobre o Reno foram destruídas, mas, por incrível que pareça, sua catedral permaneceu praticamente intacta. Uns podem achar que foi milagre, outros dizem que houve negociação entre os contendores para que aquele patrimônio da humanidade fosse poupado. A verdade talvez nunca saibamos, mas, afinal de contas, se o próprio homem levou 600 anos para construí-la, seria triste vê-la desaparecer no tempo de uma explosão. Por via das dúvidas, os padres retiraram todos os seus vitrais, antes de começarem os "papoucos" das bombas. Após a guerra, os danos sofridos foram reparados e os vitrais centenários foram recolocados para deleite de uma família caeté. Eu fiquei besta com o tamanho da igreja, cruzei seu pátio, atravessei a rua, me espremi contra os prédios do outro lado e não consegui enquadrá-la câmera fotográfica simples que possuo. No pátio da catedral tem uma réplica em tamanho natural do pináculo das duas torres. De acordo com placas escritas em vários idiomas, eu juro que tinha uma em português, a peça tem 9,5 metros de altura, mas o que eu queria saber de verdade era: Quem foi o cabra que botou aquele troço lá em cima a 157 metros do chão?

O marido de Andréia, Tosten, é um sujeito boa praça que, com muito bom humor, costuma dizer que segue a recomendação da medicina de tomar no mínimo 2 litros de água todos os dias, com a ressalva que a água que ele toma tem 5% de álcool. Fiel à tradição cervejeira do seu país, Tosten nos falou sobre a ritualística que envolve a produção e o consumo da bebida nacional. Segundo ele, cada tipo de cerveja envolve um modelo específico de copo, modo de servir próprio e mais um monte de outros detalhes. De todos estes o mais interessante foi a forma de brindar. Enquanto pelo mundo a fora as pessoas brindam tocando as bordas superiores dos copos, na região de Colônia a tradição manda que o brinde se faça tocando os fundos dos copos. Justificando tal hábito ele dizia sorrindo:

 - Mulher e cerveja se tocam por baixo.

E foi entre um brinde e outro que as horas foram passando até eu cair na cama como uma pedra, no dia seguinte iria se iniciar uma nova etapa da viagem.

Caros colegas, espero que as cervejas do final de semana não atrapalhem a segunda-feira de vocês e, sem medo de ser redundante, desejo que todos tenham uma semana não apenas produtiva, mas principalmente de paz.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 20h09
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Nu é grátis, semi-nua não

Colegas de todas as línguas

Se você está lendo este texto pode até pensar que é alfabetizado, mas tenha cuidado, pois tudo é relativo.

Durante minhas férias pude realizar um velho sonho, conhecer a Europa. Após uma viagem de doze horas, incluindo uma conexão em Lisboa, eu, minha esposa e minha filha caçula chegamos ao Aeroporto de Amsterdã. A lentidão no desembarque do avião e a demora na restituição de bagagem foi para mim uma coisa normal, mas quando passamos pelo saguão do aeroporto e chegamos à estação ferroviária, nada pareceu normal e eu me senti como um imigrante, estrangeiro ou nordestino, que chegava a São Paulo nos meados do século passado, um verdadeiro analfabeto. Também não era para menos, afinal de contas, para todo lado que eu me virava, só via placas escritas em holandês e eu não fazia a menor idéia do que aquelas palavras significavam. Após alguns minutos, identifiquei uma bilheteria e aí os pensamentos começaram a entrar em ordem. Deixei as meninas com as bagagens fui até o guichê e, dirigindo-me à atendente, declamei uma frase pré-ensaiada:

 - Good morning. Please, three tickets to this station - e deslizei sobre o balcão um papelzinho com a palavra: HEEMSTEDE - AERDENHOUT.

Eu dou um euro que sobrou da viagem para o cabra que conseguir pronunciar o nome dessa estação. A Holanda é um país lindo e com organização exemplar, mas a língua é impronunciável.

De posse das passagens, procuramos a plataforma de embarque e, após alguns minutos decifrando o quadro de horário dos trens, conseguimos embarcar sabendo que teríamos que fazer uma baldeação na estação de SLOTERDIJK, esta é fácil, pronuncia-se "sloterdaik". Finalmente, chegamos à estação de destino onde tínhamos que pegar um ônibus até o local da nossa hospedagem. Embarcamos no ônibus da Linha 80 e, dirigindo-me ao motorista, recitei aquela famosa frase:

 - Good morning. Please, three tickets to this bus stop - e mostrei um papelzinho com a palavra: SHOUWTJESBRUG. (A oferta do euro que sobrou continua de pé).

Quem já passou pela experiência de chacoalhar nos ônibus urbanos aqui no Brasil não vai acreditar, pois eis que, no país dos moinhos de vento, em cada parada há um quadro constando os horários em que os ônibus passam pontualmente e, dentro dos veículos, tem um painel onde aparece o nome e horário da parada seguinte bem como das próximas três. Finalmente chegamos ao Bed & Breakfast: My Dream. A proprietária, Leonice, uma brasileira casada com Hennes, um alemão criado na Holanda, hospeda profissionalmente turistas do mundo inteiro, mas o tratamento que nos dispensou fez-nos sentir como se estivéssemos na casa de um parente muito querido.

Quem lê sobre a Holanda sabe que o país tem um histórico de tolerância com questões ligadas a sexo e drogas, mas fiquei admirado quando li num cartaz instalado no ponto de ônibus em frente da casa da Léo o anúncio: "Nu gratis". Eu concordo com a parte da tolerância, mas nudez gratuita pareceu-me um pouco exagerado. Para minha tranquilidade, Léo me explicou que se tratava de uma oferta comercial e que a palavra NU significava, em português, "agora".

Na tarde daquela sexta-feira e no dia seguinte, com o apoio de Leonice e de um casal amigo, Alaíde e Peiter, conhecemos Haarlem, cidade onde estávamos hospedados, bem como outros municípios das suas redondezas. Foi num desses passeios que encontramos e pudemos visitar um moinho de vento em plena operação, destinado a produção de farinha de trigo. Do ponto de vista turístico a visita ao moinho foi encantadora, mas do meu ponto de vista como engenheiro e aficionado pelo estudo da história foi simplesmente fantástico. Entrar naquele moinho e percorrer o seu interior, ver as suas engrenagens, sua estrutura, os materiais de que ele é feito, seus mecanismos de manobra e dispositivos de segurança gerou uma quantidade enorme de informações.

No domingo fomos a Amsterdã onde contamos com o apoio de um amigo de minha filha mais velha que, apesar de estar naquela época morando na Holanda, estava, exatamente naqueles dias, em terras portuguesas com certeza. O rapaz, mineiro de nascimento e trabalhador ilegal por ousadia, nos levou ao RIJKSMUSEUM, pelo nome vocês já sabem do que se trata, onde pudemos não apenas conhecer o acervo que retrata a história da idade de ouro dos Países Baixos, como também pudemos nos deliciar com os belíssimos quadros de Rembrandt. Após o almoço, no qual comemos costelas de porco com batata (Bom demais!), fomos caminhar pelas ruas da velha cidade.

Que na Holanda tem mais bicicleta do que gente, isso todo mundo sabe, mas o que chamou a atenção deste caeté foi observar as prioridades dos batavos na hora de tratar os fluxos de tráfego nas suas cidades. Todas as vias são acessíveis às pessoas e bicicletas, sendo que essas últimas têm prioridade sobre os pedestres. Conforme nos aproximávamos do centro da cidade, gradativamente, fomos observando que o acesso de carros de passeio ia ficando cada vez mais restrito, até que chegamos num perímetro onde os únicos veículos motorizados eram os ônibus e os bondes que lá são chamados de tram. Outra coisa que me chamou a atenção foi ver nas ruas uma grande quantidade de carros de marcas famosas que aqui no Brasil são acessíveis aos muito ricos, mas confesso que achei simplesmente fantástico ver os motoristas conduzindo seus veículos possantes de maneira serena sem o exibicionismo tão frequentemente visto nas ruas das cidades do nosso grande país.

Caminhando pelas ruas de Amsterdã, nosso "guia por um dia", Guilherme, perguntou se poderia nos levar ao Bairro da Luz Vermelha, uma área da cidade onde a prostituição de homens e mulheres é praticada de forma regulamentada pelas leis holandesas. Diante da nossa concordância, entramos no bairro através da BLOEDSTRAAT (Rua de Sangue), local onde no passado houve uma matança de vários travestis. O relógio indicava que já era noite, mas considerando que o país gozava de horário de verão e ainda por cima fica próximo ao círculo polar, o sol ainda estava alto e iluminava muito bem toda a cidade. Talvez, por conta disso, nós vimos apenas um prostíbulo em funcionamento. Seguindo o costume do lugar, a casa possuía vitrines onde, em cada uma delas uma bela garota de biquíni ficava à vista dos passantes. Vindo de um país onde os trajes de banho costumam ser minúsculos, devo admitir que as prostitutas usavam biquínis bem comportados, mas uma coisa é certa, lá "nu" pode ser grátis, mas uma semi-nua não.

Por sugestão de Leonice, resolvemos incluir na nossa programação uma visita à Delft, cidade com quase mil anos de existência. Também conhecida por sua famosa porcelana azul, a cidade tem como maiores atrativos duas grandes igrejas construídas em estilo gótico que, como outras na Holanda, foram convertidas em templos protestantes. Numa delas, a Nieuwe Kerk, por tradição, são enterrados os membros da família real holandesa. Neste templo que abriga o mausoléu a Guilherme de Orange composto, entre outras coisas, por uma estátua do grande herói nacional, pudemos observar os nichos que abrigavam as imagens de santos que foram simplesmente derrubadas e destruídas durante a Reforma Protestante na Idade Média. Outra curiosidade por nós observada foi o fato destes templos terem sido os únicos em toda a viagem em que tivemos que pagar para visitá-los.

Nesses deslocamentos entre as cidades vi algumas coisas que não pude deixar de admirar. As cidades holandesas são ligadas não apenas por ferrovias e rodovias, como também pelas ciclovias. Lá, você pode percorrer o país inteiro de bicicleta sem precisar disputar espaço com os automóveis. Além disso, até as estradas vicinais são asfaltadas. Mas o que eu mais gostava de admirar era as fazendas holandesas. O terreno era bem plano e as divisões das áreas ao invés de serem feitas com cercas eram feitas com canais, de maneira que a terra ficava toda quadriculada. O verde cobria tudo, emoldurado pelos inúmeros canais e algumas vezes a gente via pequenas áreas de bosques. Mas surpresa eu tive quando passamos numa fazenda e eu vi umas coisas que pareciam uns rolos de papel higiênico gigantes. Eu tomei foi um susto, considerando o zelo que os holandeses têm pelas suas vaquinhas e que no idioma local vaca pronuncia-se "cu", eu pensei logo: aquilo deve servir para deixar as bichinhas bem limpinhas, para não estragar o gosto do leite. Chegando mais perto pude observar que na verdade eram rolos de feno, cobertos com uma lona apropriada de cor branca. A propósito, vaca em holandês escreve-se KOE.

Escolher a Holanda como nossa porta de entrada para a Europa foi uma decisão acertada. Poder apreciar a riqueza do seu acervo cultural, a beleza das suas edificações, usufruir do seu transporte público, transitar pelas suas ruas e canais, conhecer suas cidades históricas e sua moderna infra-estrutura nos trás uma gama imensa de percepções que palavras são insuficientes para descrever e apenas o contato direto pode proporcionar. Da mesma maneira que os elementos físicos, a educação dos neerlandeses também nos proporcionou experiências interessantes. Durante nossa visita a Amsterdã, paramos na beira de um canal para comer um lanche quando, de repente, se aproximou de nós um homem mal trajado, com a cara de quem tinha tomado uns goles. A bem da verdade, sua aparência não correspondia ao modelo de alguém muito ajustado à sociedade. Se fosse aqui no Brasil qualquer um pensaria que ele iria pedir dinheiro ou iria ficar conversando besteiras, mas não foi o que se sucedeu. O sujeito havia encontrado próximo de onde estávamos um isqueiro velho, largado no chão. O homem pegou o isqueiro e foi perguntando a todas as pessoas que estavam naquele lugar se alguém era dono daquele objeto. Somente após se certificar que este não pertencia a nenhum dos presentes, anunciou então, em voz alta, que iria ficar com ele. Só então, botou o isqueiro no bolso e foi embora.

Pode parecer coincidência, mas desde que era menino, eu sonhava em conhecer a Holanda. Um pouco por conta de um antepassado, mas principalmente por causa da figura da Irmã Letícia, diretora e fundadora da minha primeira escola. Contar os eventos pitorescos dessa visita é apenas o jeito deste simples caeté compartilhar com vocês a maravilhosa experiência que tive oportunidade de usufruir. Aproveitando a oportunidade, gostaria de desejar a todos uma ótima semana e prometo no próximo contato continuar as aventuras de um caeté nas terras de além mar.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 21h51
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Frivolitê, a arte dos nós

Colegas de todas as artes

Apesar de se passar algumas semanas em que não mando notícias minhas, gostaria de informar a todos que ainda estou vivo e gozando de boa saúde. Abstive-me de escrever por um tempo por conta de uma pequena sobrecarga de trabalho e de umas subsequentes e merecidas férias, usufruídas nas terras d'além mar do velho continente.

Aproveitando a oportunidade, gostaria de perguntar a todos, quem de vocês sabe o que é frivolitê. Antes que alguns pensem que estou aqui tratando de coisas frívolas, portanto fúteis, sosseguem, frivolitê é uma espécie de renda. Menos conhecida que a renda de bilros, este é um trabalho executado com uma espécie de lançadeira chamada navete e tem origem européia, provavelmente da França ou Bélgica. Esta arte rara foi, durante muito tempo, praticada pelas mulheres da pequena Poço das Trincheiras, lá no sertão alagoano.

Desde criança vi minha mãe, tias e avó praticando esta arte e ficava admirado com os movimentos hábeis que realizavam. Uma das mãos da artesã ficava numa posição como se ela fosse pegar com os dedos uma fruta de tamanho pequeno, como um limão por exemplo. Uma linha era então passada pelo dorso das pontas dos dedos ficando estendida, formando, digamos assim, uma figura circular. Com a outra mão a navete era manobrada em torno da linha estendida, hora passando por cima e voltando por baixo, hora passando por baixo e voltando por cima, formando pequenos nós, até que finalmente ia surgindo pequenos anéis. De anéis em anéis ia surgindo um conjunto que gradativamente se transformava em peças grandes. Cheguei a ver colchas de cama de casal feitas por elas. Era um trabalho demorado e exigia da artesã não apenas muita habilidade, mas principalmente muita paciência.

Segundo ouvi contar pelos mais antigos, essa arte teria chegado lá nas bandas do Poço das Trincheiras, trazida pelas jovens das famílias mais abastadas que foram estudar em colégios internos. Isso lá pelo início do século XX.

Minha avó Lindalva, contou que quando era mocinha foi estudar num colégio interno, mantido por uma ordem religiosa, na cidade de Palmares, zona da mata meridional do vizinho Pernambuco. Apesar da viagem demorar vários dias, incluindo vários trechos a cavalo, esse tempo foi, segundo ela própria, os melhores anos de sua mocidade. Convém ressaltar que minha avó nunca me falou que aprendera a fazer frivolitê no colégio, sua história apenas confirma a existência desse mecanismo de busca das famílias por educação para seus filhos e filhas. Quando ela foi para Palmares, outras jovens já haviam feito caminho semelhante.

Eu, naturalmente, nunca aprendi fazer frivolitê, afinal de contas esse trabalho era específico para as mulheres, mas na casa dos meus pais nós fomos criados ajudando, de uma forma ou de outra, nos trabalhos domésticos. Minhas irmãs ajudavam minha mãe nas tarefas da casa e eu, num tempo que não havia telefone, fazia o trabalho externo como ir buscar o leite na casa de Dona Iracema, dar recados na casa de vovó ou ir fazer compras no armazém de Seu Zé Acioly ou na padaria de Seu Raimundo. Do frivolitê só sobrava para eu encher as navetes. As vezes mamãe me dava quatro ou cinco navetes para encher e eu sabia que teria algumas horas a menos de folga naquela manhã. Eu passava a linha pelo furinho do eixo da pequena lançadeira e ia dando voltas. Cada vez que a linha passava pelo bico apertado da navete fazia o barulhinho de um pequeno clique. De clique em clique eu enchia cada uma delas e só então poderia ir brincar.

No ano passado, através do Centro Cultural do Sertão, entidade sediada em Poço das Trincheiras e criada para preservação e resgate da cultura sertaneja, promovemos um encontro das mulheres "frivoliteiras". Apesar de conseguirmos reunir várias delas, fizemos uma triste constatação: o frivolitê do sertão alagoano está prestes a desaparecer. As antigas artesãs não tiveram sucessoras. As novas gerações não se interessaram por esta arte rara. De todas as que se fizeram presentes apenas uma, Dona Nazarene, ainda morava na cidade.

Há pouco mais de um mês atrás, dias antes da minha viagem de férias, recebi um telefonema avisando que Dona Nazarene estava hospitalizada. Ela tentara suicídio ateando fogo ao próprio corpo e encontrava-se internada na Unidade de Queimados do Hospital Geral do Estado de Alagoas. Tio Tobias me ligou e pediu que fosse visitá-la em seu nome, pois o mesmo convalescia de uma cirurgia recente e não podia se deslocar. Numa tarde de domingo eu fui até o hospital, o que eu vi não gostaria de comentar e preferia até esquecer. Soube que a pobre senhora vivia aperreada com um filho usuário de drogas e, desesperada com a situação, resolveu por fim àquela agonia. Passei mal e voltei para casa bastante perturbado. Sua situação era tão delicada que uma enfermeira disse para mim que a equipe apenas esperava um milagre.

De volta a casa, procurei não conversar sobre o acontecido tentando direcionar meus pensamentos para outros temas mais amenos. Algumas horas depois minha filha caçula chegou do shopping center onde fora encontrar-se com alguns colegas. Começamos a conversar e ela então falou que tivera um problema ao tentar sacar dinheiro numa máquina de auto-atendimento do banco. No estado de espírito em que eu me encontrava só veio a minha mente pensamentos ruins. Assim era demais, além da sobrecarga de trabalho, dos preparativos para a viagem, das notícias ruins que chegavam ainda mais essa? Mas, apesar de tudo que se passava nos meus pensamentos, eu tinha que ouvi-la. Continuando, ela contou que, ao realizar o saque, a máquina liberou uma quantia maior do que aquela que havia sido solicitada e que achava que deveria devolver ao banco o valor excedente. Com minúcias contou o que havia ocorrido e que já havia conferido a movimentação da sua conta, constatando que só havia sido contabilizado o saque do valor solicitado à máquina, inferior ao de fato entregue. Nesse momento minha mente ficou leve e meu coração se encheu de orgulho pela postura ética da minha filha. Decidimos que eu iria à agência bancária devolver o dinheiro, coisa que fiz na primeira oportunidade, uns dois dias depois. Imaginem minha emoção quando a funcionária do banco começou a elogiar minha filha e dizendo que sua atitude era digna de louvor.

Dias depois dos acontecimentos que acabei de contar, viajamos e, durante o tempo em que estivemos no Velho Continente, aproveitamos cada minuto para absorver toda a história e cultura que encontramos disponível tanto nas galerias e museus quanto nos diversos modelos de urbanização das cidades européias. Imaginem minha alegria quando, visitando o Palácio de Versalhes, numa das suas lojas de souvenirs, encontrei uma pequena almofada decorada com frivolitê. Após o nosso regresso, cansados mas felizes, liguei para meu tio e perguntei sobre o que acontecera com Dona Nazarene. Soube então que ela não mais se preocupava com o comportamento do seu filho, pois Nosso Senhor chamou-a para fazer frivolitê em outra dimensão.

Então, é assim caros colegas, contando mais uma história, registrando os acontecimentos do nosso cotidiano, que volto a escrever para vocês. Aproveito a oportunidade para agradecer a Deus não apenas pela bela viagem que realizamos, mas também agradecer por todos os dias em que tivemos que mandar mais de uma vez uma filha forrar a cama ou lavar os pratos. Agradecer por ter que reclamar de um computador que fica ligado até tarde ou pela demora em se levantar para ir para escola. Agradecer por ter que dizer pela milésima vez que o prato deve ser retirado da mesa ou que os pés não devem ser postos na cadeira. Agradecer por ter uma família e sermos uma família há 25 anos.  Desejo a todos uma ótima semana e prometo, na próxima ocasião, contar as aventuras deste humilde caeté nas terras d'além mar.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 18h31
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Base e padrão do povoamento de Poço das Trincheiras

Colegas de todas as origens

Onde se cruza a história de uma jovem holandesa e de um simples caeté?

Se vocês estão pensando que este texto é uma repetição de outro escrito, no último dia 02 de maio, estão todos enganados. Esta história aconteceu há quase 200 anos, foi passada de pai para filho durante gerações até que a professora Maria Audite Vanderlei resolveu inscrevê-la.

Audite nasceu lá na beira do Rio Ipanema, no povoado de Poço das Trincheiras. Com cerca de 30 anos de idade ousou, foi para a capital do estado, estudou o curso Normal, formando-se em 1934. Considerando-se que naquela época o ofício da educação era frequentemente exercido por professores leigos, ela é apontada por alguns, como a primeira professora formada, nascida em Santana do Ipanema. Após a formatura, foi lecionar no município de Penedo, localizado no baixo São Francisco, e em seguida exerceu o seu ofício na cidade de São Miguel dos Campos. Finalmente, na década de 40, foi transferida para Santana do Ipanema. Em 1959, quando o Poço se emancipou de Santana, no fervor do entusiasmo emancipacionista, Audite escreveu um trabalho por ela intitulado: "Árvore genealógica da família Vanderlei - Base e padrão do povoamento de Poço das Trincheiras - Alagoas". Esse trabalho, segundo suas próprias palavras, "nada tem de lendário. Bebido na fonte pura da tradição que os nossos avós nos deixaram".

O trabalho de Audite conta a história de um fidalgo holandês que lá nos idos do século XVIII deu uma pisa da gota serena num conterrâneo seu, também de origem nobre. A confusão foi tão grande que o cabra resolveu fugir do país. Trouxe consigo uma filha chamada Maria, refugiando-se na província de Pernambuco. Instalou-se na Vila do Penedo "onde viveu incógnito até que sentiu que ia morrer. Chamou, então, um amigo e lhe pediu o obséquio de procurar um matuto probo nos costumes, para desposar sua filha única. Só assim poderia morrer tranquilo. Nessa ocasião, abriu a arca de couro e dela tirou o seu título de fidalgo, escrito em letras de ouro, documento que evidenciou a origem de nobreza de sua filha e que, trancado na arca, ocultou, por muito tempo, a identidade de seu possuidor".

" O esposo da jovem fidalga holandesa foi escolhido entre os matutos do sertão alagoano. O seu nome não passou à posteridade porque a esposa fez questão de legar aos filhos, o nome dos seus ascendentes. Orgulho de raça, talvez".

" Não sei quantos filhos teve o casal. O velho Romualdo foi um deles. Quando se tornou rapaz, abandonando a tutela paterna, veio morar no Poço. Aqui viveu cultivando a terra amiga da Serra do Poço para dela tirar o pão de seus filhos".

A história poderia ter transcorrido sem maiores transtornos, mas eis que em 1844, houve uma disputa política em Alagoas que ficou conhecida como a Rebelião dos Lisos e Cabeludos. Apesar da alusão a uma questão capilar, os contendores brigavam mesmo era por dinheiro e poder. Acontece que um dos filhos do velho Romualdo, Antônio Vanderlei, conhecido como Totonho, era partidário de uma das facções. No outro lado da disputa, um dos seus líderes era um padre lá das bandas de Palmeira dos Índios que tinha uma vida, tanto política quanto sexual, muito ativa. Segundo meu amigo Heider Lisboa, ilustre membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, o padre tinha um monte de filhos. A questão eclesiástica, com certeza, não será o foco da nossa narrativa, o problema é que os ânimos se exacerbaram a tal ponto que alguém resolveu matar o padre e aí se fez a desgraça. Os filhos do padre que ficaram conhecidos como Irmãos Morais, resolveram se vingar e partiram em busca dos adversários políticos para um acerto de contas. Na sua lista estava Totonho, lá de Poço das Trincheiras.

Os Irmãos Morais iniciaram uma série de assassinatos, roubos e incêndios, tanto contra seus desafetos quanto contra aqueles que se negavam a colaborar com eles. Quando da sua passagem por Santana do Ipanema a sua fama já era grande. Nesta cidade, mediante ameaças, obtiveram informações sobre a aparência e paradeiro de Totonho. De posse das informações desejadas partiram para o ataque ao povoado do Poço.

Segundo Audite, Romualdo Vanderlei "vinha da serra, montado num burrinho, trazendo para a família uma carga de mantimentos. Quando atravessava o leito do rio Ipanema, ouviu e viu o tiroteio. Procurou retroceder, mas foi tarde. Uma bala certeira recebida pelas costas, fê-lo cair emborcado sobre a cavalgadura. Esta cena cruel e dolorosa foi presenciada pela jovem Honória - filha do ferido. Honória casou aos 14 anos de idade e era mãe da 1ª filha (tia Belinha), quando os Morais praticaram a terrível hecatombe que enlutou a família trincheirense daquele tempo. Graciosa e meiga no lar, Honória soube dar o mais inconfundível exemplo de coragem feminina e de amor filial que os próprios inimigos admiraram. No momento em que avistou o pobre pai caído sobre a montaria, compreendeu tudo. Forte e decidida, recalcando a dor, reprimindo as lágrimas, enfrentou a fúria traiçoeira de 40 homens armados e correu a socorrê-lo. Erguendo-o, carinhosamente, encostou a cabeça branca e agonizante do ferido em seu jovem coração e com ternura edificante, confortou-o na hora extrema. Quando viu que já tinha em seus braços, um cadáver, tomando-o nas costas, arrastou-o até sua residência, a maior e mais antiga do Poço, situada em frente à ponte. Essa casa, cujas ruínas, eu ainda alcancei, foi demolida, havendo, atualmente, no terreno, uma nova e bonita construção. Foi ponto de reunião dos filhos e netos da heroína, nas claras noites de luar. Ao cadáver do velho Romualdo, Honória juntou os dos três irmãos - Cazuza, Ambrósio e Delfino, vítimas também da carnificina dos Morais, velando-os até a hora do sepultamento".

De acordo com um texto do meu primo Zé Melo, quando os Morais obtiveram informações sobre Antônio Vanderlei, souberam que ele usava uma barba grande. Acontece que, coincidentemente, naqueles dias ele havia raspado a barba e só escapou da morte porque os bandidos não o reconheceram. Segundo Zé Melo os cabras até entraram na sua casa, mas lá só encontraram uma menina chamada Landelina, perguntaram pelo paradeiro do dono da casa, ela disse que ele não estava e eles partiram a procurá-lo em outras casas do povoado.

O fim dos Irmãos Morais, todos podem imaginar qual foi, mas essa história é triste e eu prefiro continuar contando a história da descendência da holandesa Maria. Seus netos, filhos de Romualdo, que sobreviveram ao massacre foram: João Maurício, Antônio, "Coelho", Honória, Pastora e Candinha. Dentre os filhos de Pastora, um se chamou Romualdo e veio a se tornar o pai de Audite. Dentre os filhos de Antônio, sua filha Landelina veio a ser a bisavó de Zé Melo e dentre os filhos de João Maurício, sua filha Clarabela veio a ser minha trisavó.

Meus caros amigos, ao longo do tempo em que me dirijo a vocês através das Saudações Caetés, tenho o prazer de escrever as histórias que um dia ouvi das mais diversas origens, mas não posso deixar de reconhecer que contar a história dos meus antepassados me dá um prazer todo especial. Como especial é, ter o prazer de desejar a todos uma ótima semana. Espero que todos possam se lembrar dos seus pais, dos seus avós e todos aqueles que um dia lhes antecederam e espero que percebam que a história que escrevemos hoje será aquela que será contada por aqueles que um dia nos sucederão.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

OBS: Se Audite estivesse viva, em setembro deste ano de 2011 estaria completando 110 anos de vida.



Escrito por Virgílio Agra às 23h32
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Família é Sagrada e é para sempre

Colegas de todas as escolas

Onde se cruza a história de uma jovem holandesa e de um simples caeté?

A história que vou contar hoje começou na cidade de Roterdã, na Holanda, quando em 1929 nasceu Laetitia Van Fulpen. Dez anos depois, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, este país foi invadido pela Alemanha que impôs um racionamento de alimentos aos cidadãos holandeses, de modo que, durante este período, o café da manhã da família era apenas uma fatia de pão para cada um. A cada dia, seu pai saia para arranjar alguma coisa para comer e, de acordo com o que obtivesse, à noite era servida uma sopa com aquilo que ele conseguira.

Desde menina Laetitia sentiu a vocação para a vida religiosa, de modo que um dia tornou-se freira e foi para o antigo Congo Belga, onde abriu uma escola enquanto outras freiras atuavam junto à população local na área de saúde e assistência aos mais carentes. Em 1960, o Congo Belga conquistou sua independência e ela, juntamente com as outras missionárias, teve que deixar o país. No entanto, algum tempo depois, todas retornaram para dar continuidade aos seus trabalhos. Durante este novo período ocorreu uma guerra civil no país e, em dado momento, foi transmitida uma ordem às tropas posicionadas na região onde ela trabalhava para que fossem mortos todos os mercenários. Como os cabras nunca tinham ouvido a palavra "mercenários", procuraram no seu linguajar corrente algo que se assemelhasse e entenderam que tratava-se dos "missionários". Eu sei que o assunto lembra uma piada, mas não era. Logo eles partiram para a vila onde as freiras estavam, prenderam todas elas e as posicionaram para execução. Neste momento, alguns soldados começaram a questionar a ordem porque tinham filhos que estudavam na escola que as freiras mantinham e outros, cujas esposas tinham ficado doentes, haviam recebido assistência médica da parte delas. O tempo que durou a discussão entre os homens não foi longo, mas foi suficiente para que chegasse a contra-ordem e assim elas escaparam da morte certa. No entanto, foram deportadas e não mais puderam voltar ao país africano.

Enquanto isso, lá na beira do rio Ipanema, no sertão de Alagoas, eu ainda era menino pequeno e só sabia que existia escola porque via minhas irmãs falarem que iam à escola e porque eu as via estudando sob a orientação de minha mãe, que na época usava o auxílio de uma "pequena" palmatória. No início de 1968 meus pais disseram que eu iria para uma escola que começaria a funcionar naquele ano aproveitando duas salas que existiam na igreja da Sagrada Família. Lá, fui estudar a Cartilha com Dona Sebastiana, digo Dona porque naquele tempo menino não chamava professora de tia. Para mim foi um mundo novo que se abriu. Lá eu tinha muitos meninos para brincar e, no quintal da igreja não faltava espaço para correr e touceiras de capim onde brincávamos de esconder. Mas, o que mais me impressionava era a Diretora da escola. Chamava-se Irmã Letícia, vinha da Holanda, um país que eu não sabia onde ficava,  falava com um sotaque bem carregado e era a primeira freira que eu vi na vida. Era branca e seus braços eram cheios de sardas e, na minha visão de criança, parecia uma pessoa enorme. Os trajes que ela usava eu nunca esqueci, a cabeça estava sempre coberta por um véu de tecido, a blusa era normalmente de cor clara de mangas curtas e a saia vinha a até o meio da canela e era de uma cor acinzentada. Uma coisa que me chamou a atenção, era o fato de ela usar o relógio no lado interno do braço, de modo que, para ler as horas, ela sempre tinha que mostrar a palma da mão.

Irmã Letícia chegou a Santana do Ipanema graças ao trabalho do Padre Cirilo. Começou seu projeto de educação no sertão de Alagoas nos fundos da Igreja da Sagrada Família. No ano seguinte, 1969, a escola passou a ocupar o prédio onde funcionara a sede do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) em Santana. Para minha felicidade, o prédio era exatamente em frente à minha casa e aí, era só atravessar a rua e estava na escola.

Pelo fato de ser dirigido por uma freira, o colégio passou a ser conhecido pela população como o "Colégio das Freiras". Apesar dos poucos recursos e instalações modestas, a escola oferecia uma educação de qualidade como nunca se vira antes naquela cidade. Lá estudava o filho do rico e o filho do pobre. Quem podia pagava mais, quem podia menos pagava menos e quem não podia, nada pagava. Quando os recursos financeiros escasseavam a diligente freira ia buscá-los no seu país de origem. Como para alguns alunos faltava até condições de terem uma roupa boa para assistir as aulas, Irmã Letícia trazia roupas da Holanda para eles.

Acho que um dia de vida da Irmã tinha mais de 24 horas, porque além de todos os trabalhos administrativos do cargo de diretoria, ela ainda encontrava tempo para dar as aulas de religião e nos ensinar a cantar, fazendo aqueles movimentos próprios de uma regente de orquestra. Ela também coordenava a nossa participação nos eventos religiosos da cidade e, apesar de ser estrangeira, conduzia pessoalmente os ensaios dos alunos para os eventos comemorativos das nossas datas cívicas, além de encontrar tempo para encadernar nossas provas, prendendo as folhas de papel com um laçinho de fita.

Em 1972 o Instituto Sagrada Família formou a sua primeira turma do antigo Curso Primário e eu tenho muito orgulho de dizer que fui um dos componentes desta turma histórica. Na nossa "formatura" os próprios alunos proferiram discurso, encenaram teatro e, naturalmente, houve a entrega dos "diplomas". Como a escola não oferecia, naquela ocasião, o curso ginasial, todos tiveram que ir para outras escolas, em Santana do Ipanema ou em outras cidades. Eu não sabia, mas aquele foi o dia em que aquelas 20 crianças estiveram juntas pela última vez.

O tempo passou, o colégio cresceu, novas turmas foram criadas, novas salas foram construídas e mais e mais alunos passaram pelas suas bancas. Um dia, acho que eu já estava na universidade, vivendo nas bandas da beira do mar, passeando por minha cidade natal tive vontade de visitar minha primeira escola. Lá chegando, fui recebido com um imenso sorriso e aquele abraço gostoso que a Irmã Letícia sempre teve para todos os seus "filhos". Naquela ocasião tive a honra de visitar todas as instalações do Instituto Sagrada Família, conduzido pela sua ilustre Diretora que encontrou um tempo na sua agenda de mais de 24 horas para me acompanhar.

Quando o Sagrada foi para o prédio do DNOCS só havia quatro salas de aula, uma sala para os professores, outra para a diretoria e uns banheiros simples, com piso de cimento alisado. Quando o visitei pela última vez, encontrei uma escola dotada de muitas outras salas, auditório, laboratórios, biblioteca e uma simpática capelinha que Irmã Letícia me disse, ser o seu lugar favorito.

O tempo passou e um dia o Padre Cirilo morreu. Tempos depois a Irmã Letícia foi transferida para outra cidade e a direção da escola passou para outras mãos. Certo dia o telhado da escola desabou, prenunciando a marcha da história. Campanhas foram feitas para a recuperação do prédio, recursos foram adquiridos, mas o destino do "Colégio das Freiras" já estava traçado. Hoje, no antigo prédio do DNOCS, funciona uma escola da rede municipal.

Há muitos anos o Instituto Sagrada Família deixou de existir como instituição formal de ensino. Acabaram-se os tempos em que as provas eram encadernadas com laçinhos, laços feitos por mãos que afagavam alunos como se fossem filhos, como também se acabaram os tempos em que uma freira andava de bicicleta pelas ruas de Santana do Ipanema. Mas, está muito longe de chegar o tempo em que o Sagrada deixará de existir nos corações e mentes de todos aqueles que passaram pelas suas bancas, afinal de contas, família é sagrada e é para sempre.

Irmã Letícia não trabalhou sozinha em Santana do Ipanema, é importante e justo reconhecer que o trabalho realizado teve a participação importantíssima da Irmã Ana, na área da educação e da Irmã Leoncia, que dirigia um fusca levando saúde às áreas onde nunca havia chegado um médico. Irmã Letícia e Irmã Leoncia encontram-se atualmente recolhidas na Casa Mãe da sua ordem religiosa, na cidade de Asten, na Holanda. Irmã Ana, lamentavelmente teve uma morte trágica na década de 80. A todas as jovens holandesas que um dia, deixando para trás seus lares e suas famílias dedicaram suas vidas para o bem dos menos favorecidos, o meu sincero obrigado.

Caros colegas, tendo em vista mais uma semana que se inicia, quando tiverem diante de si as preocupações e aperreios do dia-a-dia, procurem lembrar-se de uma passagem dos seus tempos de infância. Eu tenho a impressão que todos acharão, nem que seja no fundo do baú, boas lembranças que, com certeza, acalentarão a alma.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 22h30
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Distração e desimpaciência

Colegas de todas as profissões

Se você está lendo esta crônica, significa que você, no mínimo, aprendeu a ler na escola onde estudou. Neste grande país umas instituições de ensino se queixam das dificuldades para cumprir os seus objetivos, enquanto outras se orgulham dos seus níveis de excelência, mas uma coisa é certa, não importa em que escola você estudou, a cultura popular te reservará boas e grandes lições.

Há umas semanas atrás, empreendi uma visita a uma amiga chamada Sandra, que estudara comigo nas bancas do Instituto Sagrada Família, lá nas bandas da Ribeira do Panema. Além da oportunidade de relembrar velhos tempos, bote tempo nisso, tive a oportunidade de conhecer sua família, composta por seu esposo e um casal de filhos. A garota ainda é estudante, mas o rapaz formou-se recentemente em odontologia e já está batalhando em busca do seu devido espaço no mercado de trabalho.

Felipe é o tipo de cara que conquista você somente com o seu sorriso e, além de inteligente e comunicativo, é também extremamente perspicaz, qualidade que este simples caeté tanto admira. Começando sua vida profissional ele não se intimidou com as dificuldades e foi trabalhar numa clínica na cidade de União dos Palmares, lá no pé da Serra da Barriga, berço do Quilombo dos Palmares. Quando ele chegou naquela cidade do interior, entrou um paciente no seu consultório e foi logo dizendo:

 - Doutor, eu vim aqui para o senhor "distrair" meu dente.

Ele na hora ficou em dúvida se contratava uma banda de forró para fazer um show ou se chamava um grupo de boêmios para fazer uma serenata para o dente doente. Na dúvida, ele começou a cantarolar ao mesmo tempo em que perguntava ao homem se o dente estava mais calmo. Ora essa! O menino passou cinco anos na faculdade, saiu sabendo o nome de cada neurônio do queixo de uma pessoa e não teve um único professor que dissesse para ele que na linguagem do matuto não existe extração e sim "distração".

O tempo passou e um belo dia, o jovem odontólogo (ele não aceita ser chamado de dentista) atendeu certo paciente e apresentou o diagnóstico. O cara então foi direto ao assunto e perguntou o quanto custava o tratamento. O sujeito já tinha consultado outro odontólogo e, espantado com o preço apresentado, disse:

 - Vige Maria Doutor! O preço do sinhô é o "quadrúpede" do outro.

Diante da cavalar comparação Felipe só ficou em dúvida se ria ali mesmo, na frente do cliente, ou se saia da sala para rir do lado de fora.

Outro dia chegou um senhor de idade com o queixo todo inchado por causa de um dente. O garoto olhou a situação e viu que o quadro era grave e, caso não fossem dispensados os devidos cuidados, o homem poderia ser vítima de uma grave infecção. Após a análise do problema veio a pergunta que era de se esperar, ou seja, quanto custaria o tratamento. O dente do cara devia estar doendo pra danar, mas quando ele soube o quanto custaria... A notícia doeu muito mais. O homem começou a chorar porque não tinha o dinheiro suficiente para pagar. Felipe disse que esse foi um dos momentos mais difíceis da sua carreira profissional ainda se iniciando. Naquele momento sua consciência ficou se batendo entre o princípio ético de cobrar um preço justo pelo serviço prestado e outro princípio que manda amar ao próximo como a si mesmo. Sabendo que a não realização do procedimento poderia significar até mesmo a morte do paciente e, sendo filho de quem ele é, a escolha não poderia ser outra, disse ao homem que se acalmasse que ele faria o tratamento.

Terminado o seu horário de trabalho, ao passar pela recepção da clínica, a recepcionista procurou o nosso "Boticão de Ouro" para entregar um dinheiro. Tratava-se de uma quantia que aquele homem havia deixado como pagamento pelo tratamento, eram apenas 25 reais, era tudo que ele tinha nos bolsos, era o valor máximo que ele poderia pagar. Dias depois, ao chegar à clínica para mais uma jornada de trabalho, soube que o mesmo homem havia deixado um saco de mangas e outras frutas, como recompensa pelo tratamento humano que recebera. Foi um verdadeiro festival de frutas.

É interessante observarmos que, longe dos salões acadêmicos e das camadas cultas da sociedade, as pessoas comuns do povo, dos mais distantes rincões deste grande país, na sua simplicidade encontram a sua maneira de se comunicar e cabe a nós, recebedores da dádiva da educação, e não a eles percorrer o caminho que ao mesmo tempo em que separa, também pode servir para unir a todos.

Voltando ao caso da "distração" do dente, lembrei-me que há uns dez anos uma velha comadre minha falando sobre seus problemas disse:

 - "Ói cumpade"! Tem horas que dá uma "desimpaciença" tão grande que eu "num" sei nem o que faço.

Como faz muito tempo, eu não me lembro o caminho que a conversa tomou, mas a expressão da minha comadre eu nunca esqueci. Refletindo matematicamente sobre a estrutura do termo, não pude deixar de concluir que a negativa de uma negação corresponde a uma afirmativa, logo des-im-paciência só pode representar paciência. Portanto, se na semana que se inicia vocês tiverem de enfrentar um grave problema, daqueles que dão aquela famosa dor-de-cabeça, procurem distrair a mente, dêem uma volta na praça, respirem ar puro, dêem um beijo na pessoa amada, mas se tudo isso não adiantar só espero que todos tenham muita desimpaciência para enfrentar os percalços da vida.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra



Escrito por Virgílio Agra às 00h50
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